Opinião

Sobre dores de crescimento

Todos conhecemos alguém que insiste em não querer crescer. Eventualmente todos temos esse alguém em nós e parte dessa luta poderá (ou não) estar relacionada com a ideia aterrorizadora dos hábitos que lentamente, e sem aviso prévio, se vão instalando na nossa rotina.

Se por um lado, uma parte do caminho de nos tornarmos adultos está relacionado com a criação de hábitos e rotinas, por outro, parecemos precisar desta base de familiaridade para os nossos dias. Contar com o conhecido, com o “aqui sinto-me seguro” representa um papel fundamental na criação de um sentimento de pertença, aos sítios e acima de tudo as pessoas. Em que é que ficamos?

E por falar em pessoas, vemo-nos sistematicamente rodeados de vidas-fotografia quase sempre construídas e melhoradas para o efeito e no entanto insistimos em trazer para comparação uma versão crua e real das nossas. Recordo sempre a imagem que a Bárbara com 12 anos tinha das “pessoas com 30 anos” e do quão longe hoje me sinto dessa imagem-fragmento. O eterno problema da percepção que cria um enviesamento quando comparamos os nossos bastidores com o palco dos outros

Crescer significa também reajustarmos algumas das verdades que temos como inquestionáveis. Deixamos de ser invencíveis, perdemos contacto com amigos que julgávamos ser para sempre, descobrimos que a paciência é uma virtude e que nem tudo tem de ser para agora.

Confesso que uma das coisas que mais admiro nas crianças é a liberdade e espontaneidade com que enfrentam o mundo. A facilidade com que estão a 100% no aqui e agora e exploram livremente o mundo que têm a frente, despreocupados e sem o peso de uma expectativa para a qual temos de viver. 

Por isso, sonho com o dia em que num exercício colectivo seremos capazes de admitir que no fim do dia somos todos apenas crianças a ensaiar esta coisa de ser adulto e não há mal nenhum nisso.

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.