Geral Opinião

As Acusadas

Já não me lembro em que ano vi o filme “Os acusados” com Jodie Foster, mas lembro-me que era relativamente jovem e também me lembro do quanto aquilo me chocou e revoltou.


Esta semana recordei-me do filme porque ando a ver uma serie documental na Netflix que se chama “Trial by Media” que consiste em falar de julgamentos famosos que de alguma forma foram influenciados pela imprensa e consequentemente pela opinião publica e para grande surpresa minha, deparei-me com o caso em que o filme se baseou.

Lembrava-me que o filme tinha sido baseado em factos reais, mas não me lembrava que os acusados eram portugueses. O crime aconteceu na cidade de New Bedford, Massachusetts, em 1983. Esta cidade era (não sei se ainda é) composta por uma grande comunidade portuguesa e é possível perceber que numa primeira fase, as primeiras indignações vão precisamente para a comunidade de imigrantes. Por todo o lado se lia que os suspeitos eram portugueses como se a razão de terem violado aquela mulher fosse o facto de terem raízes neste país à beira-mar plantado, mas isso foi só o início. O primeiro impulso foi então o de acusar os imigrantes, não os homens.


O interessante neste documentário é podermos acompanhar a forma como a opinião publica vai mudando de ideias consoante o que os Media lhes apresenta, o que neste caso foi mais imediato porque pela primeira vez, foi autorizado que um julgamento por violação fosse televisionado. As pessoas puderam acompanhar tudo como se de uma novela se tratasse, como se a vida daquela mulher não valesse nada, era apenas um joguete de audiências de um CNN em princípio de vida.
Com a ajuda dos advogados de defesa, a opinião publica vai mudando de opinião à medida que vão apresentando o caso e um pouco por todo o lado se começa a ouvir a célebre e comum frase nestes casos: ela estava a pedi-las.


Ainda hoje estive a perder tempo a ler a caixa de comentários a uma notícia sobre uma miúda de 15 anos que foi violada por um rapaz de 20 na praia de São Pedro de Moel para constatar isso mesmo. A primeira a ser julgada é sempre a mulher – sempre. Não interessa que tenha sido cometido um crime, o primeiro apontar de dedo e muitas vezes único é à mulher, neste caso a uma menor que teve o azar de acreditar que aquele rapaz tinha simpatizado com ela e que por isso concordou afastar-se um pouco do bar onde estavam.


Toda a minha vida testemunhei isto. O apedrejamento publico de uma mulher que tem de se defender depois de ter sido atacada brutalmente por um animal e se vê atacada novamente por pessoas que não conseguem perceber que há apenas uma vítima ali, a mulher que disse não, mas cujas palavras foram ignoradas. Descobri que há um termo para isso: Victim Blaming e continua actual.


Eu já estive fora de casa até tarde, já bebi mais do que devia, já usei um decote porque nesse dia me sentia bem no meu corpo, já flirtei só por que sim e então? Em qualquer um destes momentos eu estava a pedi-las? Em qualquer um destes momentos eu merecia ter sido violada? Presumo que sim, porque é isso que leio sempre que há uma violação. Mas tenho novidades para vocês – a resposta é não. E já agora: não é não, caramba.


No meu caso a única coisa que senti em cima de mim e que não queria, foram aqueles olhares asquerosos que todas nós sentimos de vez em quando ao andar pela rua, mas nem sempre é assim. Alguns fazem uso da sua força para colocar os pensamentos que sentimos naqueles olhares em prática e em forma de crime.


Voltando ao documentário, percebi que afinal o que o filme conta não é totalmente verdade, pois de facto foram quatro e não três os violadores que foram condenados, mas os que ficaram a ver e aplaudir foram absolvidos. Ela foi violada durante duas horas em cima de uma mesa de jogos, por quatro homens que rodaram entre si enquanto outros gritavam, aplaudiam e incentivavam a cena. Tudo isto num café de bairro aberto e cheio de clientes que nada fizeram, ou melhor os únicos dois que tentaram, foram impedidos pela multidão de a tirar dali.


Durante o julgamento, os media foram proibidos de tirar fotografias à vítima para salvaguardar a sua privacidade, mas como o julgamento foi em directo, o seu nome e morada foram revelados e é fácil perceber o que se passou a seguir.

Após as sentenças, a comunidade portuguesa saiu às ruas indignada. Eram milhares de pessoas a gritar e a defender os “seus”. Os camones não perceberam os gritos de ordem, mas facilmente para nós se reconhece o que dizem: “o povo unido jamais será vencido”. NOJO. Usaram as palavras de ordem da nossa revolução, do nosso 25 de Abril em defesa daqueles trastes e contra a mulher que foi vítima deles. Muita vergonha alheia. E sabem que mais, também ela era luso-descendente…


O juiz aparece no fim e diz que se arrependeu muito por ter deixado que as camaras entrassem no seu tribunal pois ninguém imaginava a repercussão que aquilo viria a ter. Certo, mas ela teve de mudar de estado e morreu dois anos depois alcoolizada contra um poste. A sua morte quase não foi referida pelos media.


Os culpados? Nenhum deles cumpriu mais de 6 anos dos 12 anos a que foram condenados.


Autor

Tradutora por habilitação, professora por profissão, viajante e curiosa pelo mundo por opção.