Opinião

Ser “instagramável”, sem ser piroso.

Aos fins-de-semana, as redes sociais enchem-se de baloiços e passadiços, levando-nos a crer que todas as estratégias de promoção dos lugares passam por criar espaços “instagramáveis”. É, mas já lá vamos.

Há um bom par de anos, era tudo bastante diferente no que diz respeito às coisas que prendiam a nossa atenção e mereciam a paragem para uma fotografia – era a altura em que nos bastavam as risquinhas das casas da Costa Nova, os socalcos do Sistelo, as dezenas de castelos reconstruídos pelo Estado Novo, o recorte das serranias imponentes do interior, os quilómetros de praias e de arribas… a gastronomia ainda não era algo que fotografássemos. Mas era assim que experimentávamos o mundo. Olhávamos, apreciávamos e, por vezes, parávamos. Uma paragem tranquila, uma fotografia tirada com calma, que provavelmente não seria mostrada a ninguém para além do nosso seio familiar ou amigos próximos.

Hoje, esta imagem parece de um tempo em que tudo seria mais autêntico, mais valioso, em que as experiências do mundo que nos rodeia seriam mais intimas e mais reais. Acontece-me muitas vezes achar que antigamente é que era, mas isto do antigamente é uma armadilha em que caímos frequentemente. Sabe-se que o nosso cérebro tem a tendência de criar memórias mais felizes do que elas foram na realidade, o que estará provavelmente na raíz da nossa sensação de que “antigamente é que era”. A questão é que o mundo está em mudança contante e, claramente, numa fase de aceleração. Fingir que este factor da constante actualização não existe e querer voltar a usar as práticas e as ideias de antigamente não só, não traz conformismo a ninguém, como pode inclusivamente gerar frustrações. São sentimentos crónicos de oposição à mudança da vida. Nenhum de nós se quer tornar na imagem do velho rezingão.

Não quero com isto dizer que toda a mudança é positiva, mas sabemos que a regressão das ideias certamente também não o é. Sabemos que corremos o risco de transformar lugares autênticos em “spots instagramáveis”, sem substância e sem autenticidade, mas também sabemos que só há mudança – a mudança que todos parecíamos querer antes do baloiço e dos passadiços- se houver mudança.

Não falo de nos conformarmos com a simples ideia de sentirmos movimento nas coisas – e isto é importante – falo de sermos nós a provocarmos esse movimento. Devemos abraçar a mudança, e acima de tudo, sermos nós a provocá-la: está nas nossas mãos intervir, debatendo e fazendo opinião, recorrendo às ferramentas do exercício cívico e aos órgãos deliberativos. A literacia em matéria de direito democrático tem um papel fundamental no exercício da vontade dos cidadãos. É que, em última instância, se a mudança não nos agrada, provavelmente é porque nós próprios não a estamos a fazer.

Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, já tive dias em que gostei bastante de passadiços e baloiços, e dias em que gostei menos destes equipamentos instagramáveis. O que quer dizer duas coisas: primeiro, que não emito uma opinião binária acerca do assunto, e segundo, que transformo um artigo de opinião num artigo sem opinião.

Ao longo do tempo, e dependendo dos dias, a minha opinião vai oscilando numa escala de cinzentos, de forma gradual, nem preto nem branco… A posição indefinida pode ser desconfortável, mas confirma que o fundamental é estarmos disponíveis para o debate e abertos à mudança.

A vida também é feita de não termos opiniões totalmente formadas, de cinzentos claros que depois ficam escuros, e de artigos com bastante potencial para serem decepcionantes.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.