Crónica Opinião Petricor

Ser e Parecer

Pintura de capa: Carlos Farinha

O meu avô materno costumava dizer que “nem tudo o que luz é ouro” e acrescentava “às vezes nem prata chega a ser”…

Tive um chefe, o meu primeiro mentor profissional, que dizia que “há pessoas com brilho e pessoas com verniz”…

Vivemos tempos em que, infelizmente, é tão (ou mais) importante, de uma forma generalista, parecer do que ser. Não concordando com mais um ditado que diz que “a mulher de César não lhe basta ser, mas também tem que parecer (honesta), vejo todos os dias pessoas “a ser”, pessoas a “parecer” e pessoas “a ser e parecer””. Os salpicos de ouro que colocamos nas nossas realidades transformam as nossas vidas em fogueiras de vaidades, muitas vezes partilhadas nas redes sociais. Lá somos sempre felizes, viajamos muito, temos os melhores amores, os nossos amigos são os mais lindos, vamos aos sítios mais originais, jantamos nos melhores restaurantes, somos os melhores pais, filhos, amigos, amantes, namorados…vidas que parece não conterem nada de menos bom. Criou-se, nestes tempos, a perceção de que se deve estar feliz o tempo todo, e promove-se e potencia-se isso, veja-se a quantidade de workshops e webinars que pululam por aí com essas receitas de “se tornar feliz”, e de preferência o mais rapidamente possível e para sempre.

Somos tão mais bem sucedidos quantos mais likes tivermos no Facebook, Linkedin, Instagram. Acho que as redes sociais têm imensos benefícios, e umas parecem mais elitistas que outras, mas todas servem o mesmo propósito, neste aspeto da vaidade, seja ela profissional, pessoal ou emocional.

Certamente não queremos partilhar o pior de nós nas redes sociais (e também não o estou a advogar), mas todos sabemos que todos temos alegrias e tristezas. Não existe sentimento melhor ou pior. Apesar de preferirmos os momentos alegres nas nossas vidas, cada emoção tem a sua importância, e é necessário saber usá-las da melhor forma possível diante dos desafios. Precisamos ter alegria nos momentos certos e dar passagem à tristeza em determinadas ocasiões.

Somos pessoas cíclicas. Passamos por diversas emoções no mesmo dia. E também a alegria pode ir e voltar. A emoção alegria é muito potencializadora. Deixa-nos capazes de vivenciar o prazer, o entusiasmo, a excitação e a motivação. Mas, não somente sobre nós mesmos, a alegria transforma os outros, pois contagia as demais pessoas e ambientes. Contudo, em excesso pode também gerar vícios e até processos depressivos.

Tendo consciência de tudo isto, torna-se imperioso que surja uma cultura que assuma este equilíbrio de que uma vida tem um pouco de todas as emoções: alegria, choro, medo, tristeza, ansiedade…uma cultura em que se seja e não se exija que sempre se esteja a parecer e a vencer. Uma cultura em que se tenha brilho natural, com pouco verniz. Porque este estala…

Que saibamos ser, mais do que parecer, também nesta época de Festas. Com muito brilho!

E cuidemo-nos e cuidemos dos nossos…afinal não é o que de verdade importa?

Boas Festas para todos!

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.