Música Opinião

Sobre a música como abrigo

Todos procuramos os nossos refúgios na hora de lidar com adversidades. Aquele lugar para onde vamos quando nos precisamos recolher antes de agir. Porque a música nunca nos deixa ficar mal, esta semana decidi partilhar as canções que me têm acompanhado por estes dias. Algumas são músicas de sempre, outras sendo novas ficarão certamente para sempre.

Começo pela música que me despertou para esta coisa das músicas-abrigo. Cat Power canta-nos esta bonita versão da What The World Needs Now, cheia de esperança e com uma voz que nos lembra a intimidade das melhores melodias do jazz. Porque em tempos de incerteza o que o mundo precisa é de mais amor.

Seguimos caminho de mãos dadas com o Devendra Banhart, pacifista inconformado que não gosta de se sentir entre fronteiras, e a minha eterna paixão de juventude. Escreve com uma fluidez carregada de consciência e com esta Little Yellow Spider escreveu uma canção que retrata de forma descomplicada a ideia de que todos temos um propósito, um papel a cumprir.

Os Kokoroko são uma descoberta recente e que tem acompanhado muitos dos meus dias. Da sua música emana uma euforia impulsionadora e que nos faz acreditar em coisas que desconhecemos. Este Carry Me Home tem em si toda a força da história que cantam e contam através das suas canções. Para ouvir, dançar e acreditar que vai dar certo.

Outra música que tem estado em constante rotação é a These Days da Nico, cantada por ela ou em qualquer uma das versões de qualidade com que nos podemos cruzar. Talvez seja por sentir que ela a canta com a confiança de quem finalmente se conhece e aceita ou porque esta pandemia nos deu mais tempo para estarmos connosco, sem os ruídos da vida moderna. Uma bonita homenagem aos vestígios do tempo. 

Esta é a Esperanza Spalding. Alguém que sabe que a vida é mais do que a agitação da fama e que conseguiu navegar as últimas décadas com uma elegância que só o contrabaixo nos consegue fazer sentir. Gosto de tudo nela. Da música que usa como altifalante para as suas ideias, da atitude guiada por um amor à sua arte que não espera nada em troca e especialmente gosto do nome. Porque também  é de esperança que vivemos nestes tempos de delírio. Hoje ouvimos esta versão cheia de classe, On The Sunny Side Of The Street.

David Bowie com o seu Absolute Beginners, porque em essência é como me sinto por estes dias. A começar tudo pela primeira vez. E porque Bowie é e sempre será uma boa companhia.

Fechar esta lista com Tracy Chapman e a sua Talkin’ About a Revolution nunca me fez tanto sentido. Por todas as revoluções que fizemos e pelas que ainda estão por vir cantemos And finally the tables are starting to turn

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.