Crónica

O tempo que gastámos a ler o título deste artigo passou, mesmo que não tenhamos lido título nenhum

Segundo Saramago, O caos é uma ordem por decifrar, por isso, a nossa condição racional impele-nos a tentar encontrar explicação para tudo. Talvez por essa razão Afonso Cruz tenha referido que dizemos que um baralho de cartas está baralhado quando não percebemos a ordem lógica, ela poderá existir, mas se não a percebermos, então esse baralho está baralhado.

Criamos  estantes e gavetas para o conhecimento, e temos necessidade de arrumar e compartimentar tudo o que se nos apresenta aos nossos sentidos.

Nem a conclusão científica que o universo é caótico, e não ordenado e lógico, como cria Aristóteles, nos demove de explicar, arrumar e compartimentar assuntos com uma urgência lépida.

Criámos os dias com 24 horas, para depois concluirmos que o movimento de translação da terra tem 365 dias e sobram seis horas. Como não encaixa com os nosso ímpetos prendados de ordem, criámos um ano bissexto para acertar as seis horas que ficaram por contar. Mas também não batia certo, parece que não são seis horas, mas quase seis horas. Então criámos um ano bissexto que não tem dia extra, para compensar os minutos que ao longo de um século perfazem um dia.

A senhora da limpeza que fez a arrumação das horas podia ter dito, não dá, isto não encaixa nesta estante sueca de contraplacado, mas não, ousou levar o seu trabalho até ao fim, para justificar que quando queremos conseguimos, mesmo que seja um trabalho cheio de rasuras e colado com saliva, que a partir do momento em que se encontra fora do perímetro da cavidade bucal, já não pode ter o mesmo nome, e passa a denominar-se cuspo.

Num segundo se existe, num segundo se morre, mas não se ama num segundo, amar exige uma sobreposição temporal. Como se quando nos entregamos, fosse possível sentir que um segundo se sobrepõe ao outro, numa cadência ordenada, quando todos os nossos sentidos estão a viver eternidades, e não instantes, mas isso é assunto para outro artigo.

Num minuto estamos totalmente certos, no outro toda a nossa razão se dissipa, principalmente quando dizemos que adoramos o tempo que vivemos, que entretanto já passou, que passa sempre, que nunca estanca.

O Marco escreve às sextas-feiras na resina. Afirmação verdadeira se o Marco tiver um artigo na página da resina até às 23.59, mas que se torna falso, mesmo que o mesmo artigo, com os defeitos e as poucas virtudes a que o escritor habitua os seus parcos fiéis, seja publicado as 00.00 horas de sábado.

Num minuto estamos certos, no outro errados, e essa racionalidade nos bastaria, para discernir entre o válido e o incorrecto, entre o aceitável e o nulo. No entanto, nem a razão, quanto mais o sentimento, se prostra perante a nossa ordenação temporal.

Se o médico disser para o paciente tomar um comprimido por dia, e o paciente tomar um às 23.59 de Sexta, e outro às 00.00 de sábado, está a cumprir escrupulosamente as indicações médicas, mas é provável que o seu organismo não se vergue com deferência a essa condição teórico-temporal.

Nunca sentiremos o tempo de forma linear, caso contrário não poderíamos ter memórias do passado, pois é lá que estamos quando esse pensamento surge, pois o nosso cérebro não distingue aquilo que supostamente existe, daquilo que existe em nós. Por isso o tempo linear, o tempo do segundo como unidade sempre igual e irrepetível, não passa de um conceito matemático canhestro, adaptado ao cosmos desordenado e caótico.
Sentimo-lo lesto quando fazemos algo que gostamos, interminável quando a dor nos aperta, mas só o anulamos quando amamos. Também é dessa forma que geramos vidas que anulam a sua finitude.

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.