Opinião

Sobre a ciência como religião

Depois de muito escrever e rescrever, lá decidi ir directa ao assunto e começar este artigo com a seguinte frase: a religião tem sido essencial para nos ajudar a dar perspectiva o mundo. Pronto, já disse.

Fê-lo através de um conjunto de crenças que relacionam humanidade com espiritualidade e nos apresentam uma ideia de dimensão humana dependente de um ser divino. Mas também o fez pela forma como ao longo dos tempos nos foi colocando perante uma ideia de ser omni-que-tudo-faz-e-tudo-pode. A perspectiva está lá e este facto foi durante muito tempo essencial para o ensaio de uma vivência (quase) harmoniosa.

Neste aspecto e em muitos outros, a ciência funciona exactamente da mesma forma que a religião. No entanto, ao invés de uma certeza no divino e sagrado, vê a sua fé alicerçada na crença dos factos ou na doutrina dos estudos científicos. Para além disto, há ainda um lado reconciliador na forma como a ciência aceita e integra a espiritualidade, perspectiva esta que dificilmente encontramos no inverso da equação. 

Muitas das grandes questões que tradicionalmente procuramos na religião conseguimos sem grande obstáculo encontrar na teoria científica. Contudo, diferente do caminho da ciência, que usa o futuro para questionar o passado, a religião tem insistido numa narrativa de uma humanidade que há muito se extinguiu.

Há ainda a perspectiva de que ciência e religião partilham uma espécie de crençocentrismo ainda que de formas bastante antagônicas. Se por um lado, para a religião a dicotomia se resume em acreditar ou não (sendo que as crenças estão e estarão sempre presentes), para a ciência é exactamente o seu contrário: o grande propósito está em questionar todas as crenças e ter como uma das suas verdades absoluta a liberdade para discordar.

Talvez o acreditar ou não nunca tenha sido o final desta história mas sim o seu princípio. Pensando melhor talvez fizesse sentido substituir o título por algo como: “Com o tempo, a ciência vai conquistar o lugar há muito ocupado pela religião”. 

Inevitavelmente continuamos a precisar de fontes de inspiração, lugares onde sabemos que vamos encontrar felicidade, um propósito e talvez até o equivalente a um sentimento de qualquer coisa como felicidade espiritual. Quer esse lugar seja na religião ou na ciência, cada um de nós saberá o que mais lhe convém.

E para aqueles a quem a escolha recair sobre a ciência como nova religião, talvez possamos seguir a sugestão de Alain de Botton. Procurar estratégias para incorporar formas religiosas e tradições para satisfazer a nossa necessidade humana de conexão, ritual e transcendência. Uma espécie de Ateísmo 2.0.

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.