Opinião

Os micro-resquícios que me (nos) inquinam a paridade

As acções contam mais que os verbos, sim, estou de acordo, mas os verbos são importantes, é com eles que se constroem narrativas, que depois condicionam e perpetuam comportamentos. E já todos sabemos que mudar mentalidades demora mais do que o desejado.

Gosto mais de PARIDADE do que de IGUALDADE. Sim, dito assim, feito assim e construído assim, sempre que não estou distraída. Porque homens e mulheres não são iguais, são diferentes.

E agora que já disse ao que venho, já terei perdido parte de vós, porque este texto não é sobre memórias felizes, nem sobre relações apimentadas, é sobre o que queremos, como fazemos, mas também como dizemos. Em tempos, a propósito de comunicação, alguém me disse: se não agarras o leitor nos primeiros segundos, já o perdeste! Paciência

A mudança de paradigma da sociedade patriarcal, centrada no macho alfa, não se faz só de lutas e de manifestações em que se queimaram os sutiãs, faz-se no dia a dia, nas nossas casas, na forma como construímos identidades e educamos filhos. Se pretendemos alcançar uma sociedade mais justa, mais igualitária (ups), em que homens e mulheres têm as mesmas oportunidades de se realizarem, de se concretizarem e de se verem retribuídos com um salário justo, precisamos de estar atentos ao que fazemos, mas também ao que dizemos.

O caminho é longo, a mulher quando assim escolheu, ou escolhe, saiu da quadratura da casa, deixou o avental em cima do fogão e as meias para coser e entrou nas empresas, na política, na tomada de decisões públicas, mas a verdade é que depois da jornada de trabalho fora, regressa à circulatura do quadrado e volta à cozinha, ao avental, às meias e aos filhos. Estudos referem mais três a quatro horas de trabalho doméstico diário, para as mulheres.

Eu não sou, nem quero ser igual ao meu parceiro, ao meu marido, somos intrinsecamente diferentes, o que queremos ambos, o que construímos é uma parceria. Em que cada um tem papéis diferenciadores, mas em comum temos outros, em que nos complementamos. Numa alegoria: São precisos dois para dançar tango!

Vou descer aos exemplos, para propor uma reflexão:

Quando uma mulher atinge um palco, qualquer que seja, com exposição pública, quais são os primeiros comentários que fazemos, mesmo os que estamos muito bem-intencionados, até atentos? – Que bem vestida, que linda! Só depois, quando surgem, por vezes nem surgem e a apreciação é apenas à primeira camada, mas só depois, dizia, verbalizamos ou valorizamos algo sobre o conteúdo, sobre as ideias. Quando o mesmo acontece com um homem, alguém se lembra de elogiar a roupa ou a luz na cara?

A quantos homens com palco, se perguntam coisas como: Como conjuga a vida doméstica com a vida profissional? Quando muito pergunta-se-lhes sobre o tempo, calma, não é necessariamente fútil a pergunta, mas é normalmente direccionada à quantidade ou qualidade de tempo que dedicam à família.

Quando se pergunta a uma criança: – Lá em casa o pai ajuda a mãe? Como assim a-j-u-d-a?! Ajudar, para mim, presume uma diferença substancial, uma diminuição do papel, uma secundarização em que alguém tem a cargo uma tarefa e o outro alguém dá uma mãozinha…Gosto mais da reformulação consciente da pergunta: – Lá em casa todos partilham as tarefas? E no todos, vamos incluir as crianças, que podem e devem ver-lhes atribuídas pequenas tarefas apropriadas à sua idade, boa?

Exemplos como estes, e outros, são muitos mais, são pequenos resquícios que me, e nos, inquinam a paridade. A propósito da eleição de Kamala Harris como Vice-presidente dos Estados Unidos da América, li ontem um post de um autor que aprecio muito, que a determinada altura referindo-se ao marido como advogado de sucesso, quando este anunciou que abdicava da sua carreira, numa argumentação que indiciava preocupação com possíveis incompatibilidades entre esse exercício e o acompanhar a sua mulher neste cargo. Os argumentos iniciais, são válidos para mim, constroem-se naquilo a que se chama o avanço na igualdade (ups) imbuído talvez numa condescendência que me agrada menos, porque tendo a considerar que num casal, nenhum dos dois deve abdicar da sua profissão, para acompanhar o outro, afinal não é de uma monarquia que se trata, mas ainda assim, trata-se da autodeterminação de um casal, de uma família, e isso não impele a juízos. Agora, já quase no final, a afirmação que me encanitou a franja foi esta, que transcrevo:

“E que no futuro mais homens, à semelhança de Doug Emhoff possam deixar as suas mulheres brilhar e iluminar o mundo.” Luís Osório

Acendem-se-me as luzes de alerta, quando leio “…possam deixar…”, como assim, d-e-i-x-a-r?! Outra micro partícula que resulta de um raciocínio enviesado, como se daqui, deste ato pretensamente nobre da abdicação da sua carreira, se conclua que há uma validação subsequente ou necessária à carreira da mulher, ou como se fosse necessária alguma cedência de palco. Menos posso pensar que esta utilização do verbo deixar, seja sinónimo de permitir. Em abono da verdade julgo que esta não foi a intenção do autor, mas estas foram as palavras que escolheu, quero acreditar que talvez estivesse distraído.

É a isto que me refiro, são estas aderências pequenas, quase insignificantes, quase imperceptíveis, quando analisadas a olho nu, mas que surgem nas palavras e no fundo das nossas cabeças, cristalizadas e é com elas que construímos narrativas. Andamos distraídos? O caminho é longo, mas faz-se caminhando.

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.