Opinião

Preconceito e perspectiva

Há ideias que vamos construindo ao longo da vida e que, por sedimentação, inacção (e talvez congelação a seco) se transformam numa espécie de fóssil carcomido. Se por um lado, criar preconceitos ajuda a simplificar o dia a dia – poupando algumas sinapses a um cérebro que, tal como a água, o ar e a electricidade, tende a escolher o caminho de menor resistência – por outro, não termos consciência que o parque paleontológico das nossas ideias vai crescendo, é bastante mau sinal.

Não sou versado em psicologia, mas acredito que criar preconceitos deve ser natural e humano. De qualquer forma, não será por ser um fenómeno natural que devemos deixar o assunto sem reflexão. Aliás, os problemas tendem a começar quando o dono destes preconceitos se recusa a pensar neles. Não é novidade que a elasticidade mental é uma virtude, embora muitas das vezes, mudar de opinião seja algo mal visto. Eu cá, acho interessante que haja disponibilidade para o debate e rebate, para a troca de perspectivas e posições. É que, normalmente, os assuntos fracturantes têm razões de ambos os lados, nem que, no caso dos mais absurdos, a razão principal seja a ignorância.

Em última instância vai tudo dar à educação e ao ensino.

Vamos a um exemplo. Já repararam que quando abrimos um mapa-mundi, na sua representação mais comum, Portugal parece estar aproximadamente no centro de tudo?

É talvez um pouco de sorte, e é, seguramente, preconceito.

Neste caso, não me parece, de todo, um preconceito mau. Especialmente porque advem de uma convenção e conveniência inquestionáveis. Também não quero imaginar se, cada vez que olhasse para um mapa, fosse necessário descodificar a geografia e a projecção em que este se encontra.

Há alguns anos esta questão do centro, orientação e projecção do mapa-mundi não seria assunto, mas nos tempos que correm, este é mais um improvável exemplo de algo que parece deixar muita gente desconfortável. É importante percebermos porque a maioria dos mapas que conhecemos se encontram com a Europa ao centro, afinal foi a partir da Europa que se documentou o restante mundo, mas isso não faz da Europa, nem das suas gentes, melhores ou piores seres humanos. Não me parece difícil de perceber, mas as sensibilidades relacionadas com as construções conceptuais que a História nos deixou, estão a deixar a internet e o mundo num espaço muito revolto e confuso. As estátuas vandalizadas são apenas um dos sintomas da confusão geral que existe acerca dos factos da História e daquilo que possam ser os ideais actuais e o que consideramos correcto.

Os sistemas de ensino estão com um desafio pesado pela frente, os meios disponíveis para a divulgação de conhecimentos estão corrompidos – e isto não é de agora, pensemos no que aconteceu com a televisão, que podia ter sido usada para formar e educar – e o futuro está a ver o crescimento de um batalhão de mentes turvadas, mas desta vez, com Voz. A ideia que os ignorantes não sabem escrever não está actualizada. Pode-se saber escrever e ser um perfeito idiota, assim como se pode ser analfabeto e ter uma mente admirável. Pela primeira vez na História, os idiotas escrevem e têm acesso a um poderoso meio de difusão de ideias: a internet. As redes sociais geraram um perigoso empoderamento nos difusores de conspirações e tudo quanto é actividade reaccionária.

Em parte, a culpa é da incapacidade de dialogar e colocar preconceitos em perspectiva. Faz-nos bem pegar no pincel e no escopro, e de vez em quando desenterrar umas ideias e espanar-lhes o pó. E por falar em perspectiva, normalmente, a distância ajuda à observação: se olharmos de fora da trincheira, longe da poeira, vemos melhor o todo e o enquadramento desses tais fósseis de preconceitos.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.