Opinião

Ousar sonhar

Neste 25 de Abril dei por mim a pensar em quem seria eu se não tivesse existido a revolução dos cravos.

Os meus avós trabalhavam no campo. Tanto os maternos quanto os paternos. Trabalhavam as terras dos ricos, como eles diziam. O meu avô materno tinha uma junta de bois e era com ela que tinha de criar três filhas. Havia os pobres e os ricos e ao domingo todos se encontravam na missa. Lembro-me do meu avô contar que uma vez à saída da missa, ele, ao ver um dos seus patrões, esticou-lhe a mão para o cumprimentar. O senhor deu uma gargalhada e ofereceu-lhe o pé em resposta. Não havia misturas.

Muitas histórias eu ouvi sobre a vida no campo! A minha avó Rija, que nem era Rijo, mas que a vida a levou a ser, contava-me tantas histórias sobre a vida no campo que eu cresci a pensar que aquilo até era divertido. Não era, se não trabalhassem as terras dos ricos morriam de fome. As rodas à volta da desfolha do milho, ou como a minha avó dizia “espumar o milho”, eram as que me divertiam mais. Os namoricos e as cantorias quase faziam desaparecer a dureza da vida no campo.

O meu avô materno tinha cinco irmãs. Todas elas fugiram do campo para servir “Senhoras” em Lisboa. Lembro-me que a minha tia Maria nunca me tratou pelo meu nome, tratava-me por “menina” pelo hábito.

Nenhum dos meus avós foi à escola. Não tinham esse direito porque eram pobres. Assinavam com uma cruz. A minha avó materna só mais tarde conseguiu aprender a escrever o seu nome.

Os meus pais puderam fazer a escola primária e foi só. Terminada a quarta classe tiveram de começar a trabalhar para ajudar em casa.

Sem o 25 de Abril, duvido que eu pudesse ter saído de casa aos 15 anos para continuar os estudos em Castelo Branco. Tirei uma licenciatura, uma pós graduação, um mestrado e hoje sou uma professora que adora os seus meninos.

Sem cravos, estaria em Oleiros a trabalhar no campo ou a trabalhar em casa de uma senhora qualquer sem direito a ambição ou qualquer esperança de uma vida melhor.

Portanto eu sou daquelas que chora a ouvir a Grândola, Vila Morena porque sei que hoje só posso ser quem sou porque um dia alguém ousou sonhar para que a minha vida pudesse ser diferente.

Autor

Tradutora por habilitação, professora por profissão, viajante e curiosa pelo mundo por opção.