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“Ajuda-me, deram-me peçonha”

Ideias imperialistas à parte, tenho um fascínio especial por uma figura da última fase dos descobrimentos portugueses. Um descobridor jesuíta que revitalizou o entusiasmo da Europa pela descoberta de “novos mundos” por via terrestre, num período de caminhos marítimos rotineiros e frotas envelhecidas.

O nosso país encontrava-se sob governação espanhola. Dom Sebastião morreu novo sem deixar sucessão, e um suborno em ouro ajudou a saltar níveis de legitimidade e colocou a corte nas mãos de Filipe II de Espanha. A história é um pouco mais complicada (e interessante!), com o Prior do Crato, também candidato à sucessão, a instalar-se em Angra do Heroísmo como sendo o Rei de Portugal. Título que só era tomado como verdadeiro lá na ilha Terceira, mas que ainda durou 3 anos.

Por essa altura, nascia em Oleiros, António de Andrade (1580). Cerca de 400 anos antes de mim.

Nunca deixei de achar incrível que um jovem de uma pequena vila tenha tido a oportunidade de iniciar os seus estudos nas escolas jesuítas de Coimbra, ter continuado a estudar em Lisboa e ter partido para Goa onde concluiu os estudos. No ano de 1624, António de Andrade partia de Agra, onde está hoje o Taj Mahal – embora este só começasse a ser construído 8 anos depois – e chegava a Tsaparang, no Tibete. Foram ao todo 7 meses, ida e volta, que se encontram relatados nas suas “Cartas do Tibete”.

Há cerca de três anos, andei particularmente debruçado sobre a história de Andrade. Integro juntamente com a Catarina Duarte (minha companheira de vida e de profissão), o grupo SENZA, e quando tivemos oportunidade de ir tocar à Índia, tentámos recriar o percurso do descobridor, de forma quão prática quanto possível. Em Fevereiro de 2016 estávamos no noroeste da Índia. Separados pela faixa militarizada do Desfiladeiro de Mana, nas encostas dos Himalaias, ficámos a pouco mais de uma centena de quilómetros do local tibetano alcançado pelo descobridor. De olhos semi-cerrados – para vermos mais longe – tentávamos, com o olhar, transpor o norte do maciço da cordilheira mais alta do mundo.

De alma cheia, rumámos a Goa.

Esta experiência teve um impacto profundo em nós, tanto que o nosso segundo disco, “Antes da Monção”, foi baseado nesta viagem.


António de Andrade foi dos últimos descobridores da última fase dos descobrimentos portugueses. Dotado de grande reputação, conhecimento e arrojo, atingiu posições de referência e poder em Goa – algo que gerou um pequeno grupo de opositores.

Aos 54 anos, no alto cargo de reitor do Novo Colégio de São Paulo em Goa, é envenenado, por um seu subordinado, ao jantar.

Terá dito: “Ajuda-me, deram-me peçonha.”

A quem tenha interesse aprofundar o assunto, há alguma informação dispersa, mas destaco o relato (na primeira pessoa) das Cartas do Tibete de António de Andrade e também o recente artigo de investigação, que compila um grande número de fontes: Murder in the Refectory – The Death of António de Andrade.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.