Opinião

Isto, hoje, não aconteceria…

“Resistência” – Aguada sobre papel / 1972; Ribeiro Farinha

Quadro retirado pela PIDE juntamente com outro (“Encurralados”), que nunca mais vi, de uma exposição no Estoril.

Hoje partilho convosco, uma memória de um conterrâneo e artista, sobre a sua vivência na altura do estado novo. Este texto foi retirado de uma conversa entre o José Ribeiro Farinha e o seu filho Tiago. Isto, hoje, não aconteceria porque se fez Abril.

Isto, hoje, não aconteceria… Nunca fui, fisicamente, molestado pela PIDE mas muito prejudicado. Depois da proibição de um poema, nunca consegui passaporte, nem sequer para Espanha onde, tendo participado no Salão de Outono de Madrid – 1970 – não estive presente na abertura. Esta aberração, hoje, não teria acontecido…

Em 72/73, depois da atribuição de uma bolsa para estudar em Itália na Academia Carrara de Belas Artes de Bérgamo, só depois de pressões da Academia com o Instituto Italiano de Cultura de Lisboa a quem devo isso, consegui passaporte, só para Itália, com a obrigação de me apresentar semanalmente no nosso consulado em Milão, onde tive bons amigos. Isto, hoje, não aconteceria…

A Academia organizava todos os anos uma visita de estudo para os alunos, em cidades históricas da Europa. Nesse ano a visita era a Praga, Bratislava e outras cidades checas (então Checoslováquia). Começou outro calvário: corridas entre Bérgamo, Milão e Roma. Só nas vésperas da partida, consegui tombar o último obstáculo com o visto do consulado da Checoslováquia em Roma, enquanto a minha mulher era incomodada em Lisboa… E fico por aqui. Isto, hoje, seria impensável.

O 25 de Abril surpreendeu-me em Bérgamo, onde tinha já a família. Festejámos com os amigos italianos, até às tantas.

Que saudades! VIVA O 25 de ABRIL de 1974. Apesar de alguns percalços, devolveu-nos um dos bens mais preciosos: a LIBERDADE!

Rº Tiago Farinha