Opinião

Fui à confiança. Mas amanhã faço teste à COVID19

O sino digital característico e a sinalética apagada indicam que os cintos de segurança deixam agora de ser obrigatórios, embora sejamos todos avisados que só nos devemos levantar para situações de extrema necessidade. Estou a regressar a Portugal, no último avião de um fim-de-semana de voos, com passagem por vários aeroportos e permanência num dos países com maior aumento de casos da COVID19. Não sei se apanhei ou não o vírus (embora tenha feito tudo o que esteve ao meu alcance para evitar o contágio), mas amanhã tenho o teste marcado.

Fui tocar à República Checa no Sábado passado. Sim, aquele país que hoje de manhã, Segunda-feira, quando arranquei do hotel para o aeroporto de Praga, acabava de entrar em Estado de Emergência… não se notava nada. Este texto não é sobre Praga, não é sobre o meu voo, nem sobre o corona, mas sobre a confiança e as coisas que, enquanto seres Humanos, fazemos porque queremos muito e para as quais arranjamos sempre uma forma de nos adaptarmos.

Apesar deste concerto ser um evento remarcado por causa da paragem da aviação, nunca coloquei em causa que se realizasse agora em Outubro. Mas tive dentro de mim um dilema que confrontava responsabilidades de diferentes ordens. Por um lado, a ilusão de uma responsabilidade perante a protecção da minha saúde mantendo-me resguardado, e por outro, a responsabilidade perante a minha actividade profissional e sanidade, assumindo que confio nas práticas e regras implementadas. Ora, sabendo nós que a aviação não tem produzido surtos dignos de nota, nem assim o vírus é algo fácil de esquecer durante todo o período em que estamos num avião ou num aeroporto. Lidamos com algo que é semelhante a um salto de bungee-jumping, ou de pára-quedas: nós sabemos que a estatística está do nosso lado, mas mesmo assim o nosso cérebro tem programada uma resposta primitiva com a qual alguns de nós têm dificuldade em lidar. Eu lido muito mal. Talvez por isso nunca tenha saltado de pára-quedas nem tenha feito bungee-jumping.

Embora nos últimos meses tenha vindo a desempenhar a minha vida com alguma serenidade – tendo conseguido tornar normais alguns rituais extra de higienização, distanciamento e tendo “abolido” os abraços, beijinhos e apertos de mão – percebi que realizar esta viagem despertou algo de simbólico em mim. É necessário percebermos que a vida não pode parar e que temos que procurar formas de a viver, em segurança. Nem que tenhamos que nos relembrar vezes sem conta dos cuidados a ter e de fazermos testes quando a responsabilidade, ou a consciência, assim o obrigam.

Julgo que o que presenciámos em Março e Abril em Portugal é irrepetível. O medo e a paragem em absoluto poderá ter sido algo histórico e ensinou-nos muito sobre nós próprios. Ensinou-nos sobre o valor das actividades que dávamos por rotineiras e garantidas até então. Ensinou-nos que nós, afinal, nos conseguimos adaptar com uma rapidez admirável.

Temos uma capacidade inacreditável de nos adaptarmos a todas as situações, à excepção talvez de nos adaptarmos ao isolamento e à paragem.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.