Crónica

Os almoços de família debaixo do amieiro na ribeira_Gozendo

Todos os anos repetíamos, eramos muitos, ainda assim, menos de duas dezenas, mas a algazarra que fazíamos parecia de muitos mais.

Aqueles almoços nunca começavam no próprio dia, começavam sempre vários dias antes, a minha tia, tinha o condão de fazer o difícil parecer fácil, coisas de feiticeira, mas hoje sei que haveria de estar vários dias a pensar e a preparar aquele almoço.

O tio haveria de ter cortado alguns ramos ao amieiro, para que pudéssemos andar de pé na sua sombra, o chão já teria sido comido pelas cabras, que por um ou dois dias seguidos haveriam de ter saído do curral com esse propósito, o de desbastar as ervas e de deixar adivinhar as raízes junto ao tronco dos amieiros, e por fim as pedras da ribeira. Tudo limpinho, um mimo. Primeiro vinham as mantas de fitas, várias, que eram colocadas umas a seguir às outras fazendo um enorme tapete, recordo os rebordos destas mantas, uns com bolinhas, outros com riscas, por cima das mantas, no centro colocava-se uma toalha de mesa, sim, que lá por comermos no chão, também não se prescindia assim do esmero dessa maneira, o meu avó por esta altura já teria encontrado um suporte natural, entre dois ramos para pendurar um rádio com leitor de cassetes, a pilhas, claro. E por perto estariam já o mesmo número de pilhas necessárias à substituição, caso viesse a ser necessário.

Depois, as grandes canastas de palha haveriam de estar carregadas de loiça e de talheres, para cada canasta eram precisas duas pessoas para as carregar desde casa até à ribeira, bom, a tia fazia aquilo sozinha, colocando uma rodilha junto ao carrapito que ajeitava antes, fazendo-o baixar um pouco para que a rodilha assentasse na perfeição e o cesto por cima, e lá vinha ela com passos firmes e assertivos, connosco atrás aos saltinhos, netos e sobrinhos netos. Era também mestra do equilibrismo. Algumas vezes assavam-se sardinhas, as batatas vinham cozidas de casa, a salada temperava-se num alguidar de alumínio ali mesmo. Mas outras vezes havia comida de panela, com molho e tudo, caldeiradas ou chanfanas e tudo isto chegava intato à beira da ribeira, sem verter, ainda a borbulhar. E o caminho não era fácil, havia socalcos que atravessavam a horta dos tios, pequenas ladeiras abertas entre as couves e o milho, e era necessária pontaria para passar ali.

Havia broas acabadas de fazer, queijos que escorriam frescura, tudo cortado e colocado em pratinhos, como deve ser, que lá por se almoçar no chão, não se podia permitir tudo, havia requinte ali, não era o requinte que assenta na sofisticação, era o requinte que assenta em fundições tão mais valiosas: a autenticidade, a genuinidade. Como um luxo despojado de assessórios inúteis! Estávamos todos, a hora em que finalmente nos sentávamos, descalços, sobre as mantas, uns de pernas cruzadas, outros de lado com as pernas fletidas, era a magia a acontecer. Havia brindes, havia uma alegria no ar, havia as estórias contadas à vez, havia memórias partilhadas e havia que ir buscar mais uma garrafa de vinho, as garrafas tinham um local próprio para refrescar na zona da ribeira em que a água corria com força, ajeitavam-se algumas pedras para fazer a contenção das garrafas e dos melões, logo ao lado, à espera da sua vez de serem “pescados”.

Nós, os miúdos, tínhamos por aqueles dias autorização para “sair da mesa” mais cedo, podíamos voltar às brincadeiras de primos, a jogar à apanhada, fazer peixinhos com seixos que saltavam em cima da água, claro que para darmos um mergulho no açude, mais a cima, tínhamos de respeitar a regra da época, que nos penitenciava com três horas a favor da digestão. Os adultos ainda haveriam de se demorar por ali, até à hora de “levantar a mesa” e ir lavar a loiça, sim, ali mesmo na ribeira, à boa maneira portuguesa da altura, os homens permaneciam sentados, talvez a beber medronho em pequenos copos que pareciam dedais, de vidro fino com umas florinhas pintadas a azul, vermelho e branco, que lá está, há coisas que mesmo aligeirando, não se pode abrir mão. Dizia, as mulheres levantavam-se e faziam um trabalho de equipa, limpando os pratos e depois passando de uma para outra, até chegar à que tinha os pés na água, a esponja e o detergente nas mãos, sim a ecologia não era primordial naqueles tempos.

Por aqueles dias podíamos ver os crescidos de outra forma, descontraídos, a baixar as regras, a aligeirar, e apesar de pouco provável, para lá do meio da tarde havia “guerras de água”, alguém teria começado, um copo ou uma caneca de água que se atirava, e depois, bom, depois era a tal algazarra de que falava no início, parecíamos sempre mais do que eramos na realidade, as gargalhadas davam a volta à ribeira e voltavam, os nossos crescidos eram felizes e brincavam como gente pequena!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.