Opinião

(ainda) Sobre as questões de género

Para surpresa de muitos, esta semana voltamos a assistir a um episódio (mais que) repetido de uma novela que cheira a mofo e que muitos juram a pés juntos não ser representativa da nossa sociedade. Aquilo que revela a postura de certos apresentadores de programas da televisão nacional está fortemente errada e mais ainda a de quem insiste em dar-lhes palco.

Não temos mesmo problemas com as questões de género?

Temos um problema quando os nossos principais meios de comunicação dão palco a vozes que insistem em replicar receitas que alimentam a descriminaçao e a iliteracia nas questões de género. Na guerra de audiências não vale tudo. Não vale usar o sexismo e a misoginia para competir com os canais rivais e muito menos vale a exaltação da personalidade de um apresentador quando este reforça e valida estereótipos de género que tanto lutamos para eliminar.

Temos um problema ainda maior quando o automatismo está enraizado, quando num momento de confusão o que nos salta é um “vocês são senhoras, deviam dar o exemplo”, “adoro esta competição entre mulheres”, “‘és um gajo de altos e baixos. Ris e choras. Já tive namoradas menos complicadas”. Estes automatismos não são genéticos, nem advém da nossa doutrina primitiva dos impulsos primatas, porque convenhamos já tivemos tempo mais que suficiente para mudar alguma coisa. Ninguém pensou na possibilidade de determinadas reações estarem relacionadas com questões de personalidade, educação, contexto e liberdade para sermos o que bem nos apetecer?

Temos um problema quando usamos a diferença para excluir, marginalizar ou evidenciar uma característica que atribuímos a um grupo só porque sim, ou pior ainda, porque sempre foi assim. Qual é a base em que fundamentamos frases como “as mulheres têm de dar o exemplo” na limpeza da cozinha ou “as mulheres não se entendem a trabalhar juntas”? Como se as métricas para o sucesso fossem apresentadas num catálogo de genes poeirentos e a cheirar a naftalina… porque sim, porque sempre foi assim. 

Temos um problema quando achamos que um ambiente de trabalho tóxico pode ser entretenimento, rentabilizar esses cenários é dar-lhes legitimidade e há algo de profundamente errado nisso. 

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.