Crónica Geral

O missal branco nacarado, a Carla o Chico e eu

Há várias semanas que ensaiávamos para a primeira comunhão, a forma como entraríamos em fila, dois a dois na capela do colégio, a forma como seguraríamos as flores e o missal sem que nenhum dos dois caísse, até ao momento em que já um a um ofereceríamos à Mãe, o ramo que levávamos. Tudo era muito cénico, muito ensaiado, era quando nada podia correr mal que tinha tudo para correr mal.

A capela estava em obras, que deveriam ter acabo a tempo da cerimónia da primeira comunhão, mas como nada podia correr mal, correu. As obras não tinham acabado, assim, foi necessário transferir a capela para uma sala do colégio, que estava habitualmente fechada, uma azafama, carpetes enormes para forrar o chão que não deveria ser pisado por tanta gente, bancos alinhados, altar improvisado, chão encerado que aqueles tacos de madeira ainda mantinham intactos os espaçamentos, ao contrário
de outras zonas, onde nos cabiam os bicos dos compassos que fazíamos deslizar por ali fora contornando o espinhado e no final recolhendo nas mãos a cera que sobrava e com a qual fazíamos bolas, lá vinha a Sra. D. Alzira bradar que os tacos ficavam soltos. Mas aqueles não, aqueles estavam imaculados. Quando se percebeu que a capela não estaria pronta a tempo, na véspera ainda houve tempo de um ensaio final a caminho da capela improvisada, é que tínhamos que subir escadas, muitas escadas, dois a dois alinhados, pediram-nos que levássemos o missal e improvisou-se um cone de papel para simular o ramo de flores.

A Carla mostrou-nos logo de manhã, na carrinha um missal branco nacarado debruado a dourado, com o seu nome impresso a fio de ouro, em letras desenhadas à mão, reluzia até à impertinência. Para ela: um orgulho, os pais tinham antecipado uma das prendas que pensavam dar-lhe no dia seguinte. O Chico cobiçou o missal logo ali, no caminho para o colégio, enquanto o sol beijava a capa de madrepérola, à Carla faltam-lhe alguns cromos para terminar a coleção das Casas e Trajes Típicos Portugueses, continuaram a falar o resto do caminho, eu perdi-me a olhar as nuvens, ou outra coisa qualquer.

O ensaio correu como esperado, o Capelão ajudado por várias Irmãs deu-nos as indicações necessárias, subimos escadas até onde nunca tínhamos subido, aquela era uma sala privada do colégio, albergava uma coleção de pinturas do teto ao chão, e inúmeras gaiolas de aves exóticas. O espanto era muito, tínhamos a noção de transpor algo que durante todos os outros dias, anos naquele colégio nos diziam que era intransponível. Rezou-se uma Missa inteira para podermos replicar os momentos importantes- a comunhão, os cumprimentos, tudo de forma ordeira, aposto que visto de cima seria igual a um bailado. No final descemos as escadas, perfilados dois a dois, para voltar ao átrio principal e depositar individualmente os ramos, que naquele dia eram cartuchos de papel, junto da imagem à entrada do colégio.

No final do dia, já em casa, depois de ter estado ao telefone, a minha mãe chamou-me para me perguntar se eu sabia onde é que a Carla tinha deixado o missal…que os pais já tinham ligado para o colégio, que ninguém sabia do dito livro de orações.

Quando nos vimos, já no jardim do colégio estávamos todos deslumbrados uns com os outros, todos vestidos de branco, eu e a Carla de vestidos próprios para a cerimónia, o Chico salvou-se ao hábito, que nos descreveu como sendo um vestido, e pode levar uns calções e uma camisa, tinha um relógio, novo que exibiu muito capacitado da sua responsabilidade de ser crescido. O nosso espanto provinha do facto de não estarmos de uniforme, ou bata e de termos ao peito fios de ouro e cruzes. A Carla estava nervosa, tinha os olhos vermelhos de tanto chorar e trazia consigo um missal em latim, que a avó lhe deu antes de saírem de casa, para substituir o seu, nacarado e dourado, perdido para sempre. Contou-nos que a mãe lhe disse que por ela, naquele dia levava as flores e a caderneta de cromos, para se lembrar da patetice que tinha feito.

Já em cima do momento de nos agruparmos dois a dois, para começarmos a subir a escadaria, o Chico foi a correr ter com os pais e de dentro de um saco saiu o incandescente missal, que iluminou primeiro os rostos dos pais da Carla, o dela só se iluminou depois do Chico lhe dizer que podia ficar com os cromos.

Lá fomos, seguimos como pudemos o guião que nos tinham preparado, antes de chegarmos com as flores aos pés de Nossa Senhora, já vários tínhamos caído, o Chico distraiu-se a olhar para o relógio, logo nas escadas, a Carla enquanto recebia o diploma da Primeira Comunhão das mãos do Capelão, e eu no momento em que regressava ao meu lugar, depois dos cumprimentos, com todos a olharem, já à minha espera para seguirem, maldita organização alfabética, (não havia Teresas nem Tomás) porque me demorei num abraço apertado aos meus padrinhos e o meu lugar era o mais perto da meia lua que circundava o altar, malditos sapatos novos (não, não eram brancos) de sola polida em cima dos tapetes.

Anos mais tarde, ao ver a fotografia em que estamos alinhados num degrau à frente da entrada, e ao perceber que os nossos vestidos tinham todos a mesma altura, mesmo que uns já tivessem sido das avós, das mães, das tias, das primas, das manas e agora nossos, soube que havia um livro de estilos que fora enviado para casa. Hoje sei que aquilo que crianças e adultos valorizam podem ser coisas tão diferentes como um missal personalizado ou uma caderneta de cromos completa!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.