Crónica Opinião

Dos Direitos Absolutos – A LIBERDADE

Se chegaram até aqui, conduzidos pelo título, com alguma vontade de insurreição, não percam tempo a ler, não vos vai servir.

A Constituição da República Portuguesa (CRP) consagra-lhes um capítulo inteiro_Direitos, Liberdades e Garantias, enuncia-os e esmiúça-os por vários. Outros Códigos integram-nos e aplicam-nos às Sociedades em geral e aos Indivíduos em particular. A nossa Revolução é recente, ainda nos ecoam nos ouvidos e no coração as palavras de ordem gritadas pelos soldados e pelo povo, destaca-se uma: L-i-b-e-r-d-a-d-e!

Ora, acontece que para além de ler a CRP, é preciso saber que provavelmente não há Direitos Absolutos, que eles colidem entre eles mesmos, e que colidem quando evocados por pessoas diferentes, que é preciso integrá-los, ponderá-los e valorá-los, para resumir de forma mais simples: Os meus direitos terminam onde começam os do(s) outro(s)! Esta premissa vale para todos os tais Direitos. Vivemos em sociedade e precisamos de um sistema normativo que regule as nossas relações, porque não há ilhas que cheguem para todos.

Depois, embora jovem a Revolução que nos deram como garantida, refiro-me a quem tem menos de cinquenta anos, não só não está garantida como não está terminada, mas isso agora é acessório, porque muitos se esquecem de perpetuar a educação do coletivo, em detrimento do individual, também outro principio da Revolução dos Cravos nas pontas das espingardas. A educação premia os rankings, os comportamentos meritórios mas individuais, os pais fomentam pequenos príncipes, que podem tudo, que são lindos no seu individualismo, e esquecemo-nos de fundamentar e assegurar níveis mínimos de pensamento e ação coletivos, essenciais para o progresso das sociedades.

Entretanto, descendo ao concreto: Já levamos um ano disto, desta realidade nova, de restrições, de limitações, de mitigações de quase tudo o que julgávamos garantido, até pela Lei Maior, o plano da discussão não é nem pode ser quem está mais cansado disto, ou quem é mais vítima, não há forma, estamos todos, todos temos mais que fazer, todos temos urgência e eminência de trabalhar, de sair, de abraçar, de estar com os nossos, de festejar. Quem não?! O que não é acessório é a evocação da Liberdade, enquanto direito absoluto e fim último, um pouco como quem evoca o Santo Nome do Senhor em vão.

Quando alguns (milhares) saíram à rua este fim de semana, sem máscara para se manifestar, em nome da tal Liberdade, arrogando-se o direito de pensarem pela sua cabeça, de não serem “carneiros”, este plano de discussão não só é arrogante, na medida em que os próprios se colocam no plano de superioridade intelectual, o que quer que isso seja, porque desmerece quem eles consideram “carneiros”, como é infundado cientificamente, não vou escrever uma linha que seja sobre os negacionistas, não tenho paciência.

Gosto muito, já evoquei e evoco sobre outras questões: o meu corpo, a decisão é minha! Lamento, mas não se aplica aqui, uma vez que as decisões individuais colidem de frente qual choque em cadeia por vários quilómetros a deslizar no gelo com camiões de longo curso e carga espalhada na via, com o coletivo. Não somos ilhas, não vivemos isolados, logo não dá! Também não se trata de viver e deixar viver, que tenho como mantra para tantas coisas na vida. Talvez a maior provação e paradoxo de tudo isto que nos está a acontecer seja isso mesmo, é que para vivermos, precisamos de nos isolar, para nos preservarmos a nós e aos outros, que ainda por cima nem sempre são só os nossos, precisamos de não estarmos juntos, é paradoxal, bem sei.

Depois aborrecem-me sempre os absolutistas, os radicais, mas mais do isso aborrecem-me para lá da conta os rebeldes sem causa. Último spoiler: no fundo, no fundo, meus queridos isto não é sobre vocês, é sobre nós, todos!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.