Petricor

A boina galega

Fotografia: Eleições de 75, as primeiras eleições livres.
Foram as primeiras eleições em que as portuguesas adultas puderam votar sem restrição.

Tomo um banho. Visto uma camisola nova, vermelho escuro, cor de sangue. Guardo sempre a estreia de roupa para ocasiões importantes. Um toque de perfume “Libre” e ponho rímel nas pestanas. Ir votar para mim é um ato solene e por isso todo este aparato nem sempre habitual em mim. Decido ir a pé. Preciso de desentorpecer as pernas e apanhar ar na cabeça, que parece querer rebentar com tamanha informação que processou nas últimas horas.

Lembro-me bem da primeira vez que votei, em Oleiros, senti-me verdadeiramente adulta. Agora a minha opinião poderia ser tida em conta nos destinos da vila, do país. Nunca faltei a qualquer votação para que fosse convocada: autárquicas, legislativas, académicas, do condomínio…e até me ser possível mantive o meu domicílio fiscal em Oleiros para votar em Oleiros. Achava que o meu voto faria maior diferença nas autárquicas, na minha comunidade. Mas, dizia eu, que me lembro bem da primeira vez que votei. Senti um pequeno friozinho na barriga, sensação que mantenho até hoje quando vou votar. Associada à responsabilidade do ato, é certo, mas também da consciência da liberdade que é fazê-lo.

Desço o elevador e reparo que começa a chover, pingos pequenos e frágeis. Volto a casa, decido não levar guarda-chuva e desencanto da gaveta a minha boina galega, parecida com a que o meu avô Guilhermino usava. Faz sentido. O meu avô era mineiro e analfabeto (aprendeu os números sozinho para os poder marcar no telefone e ligar aos filhos e netos) mas foi uma das pessoas que mais me influenciou na minha ideologia política. A análise que fazia do país e do mundo com a sensatez e inteligência que possuía eram admiráveis. Como obtinha informação? Ouvia rádio, de dia e de noite – literalmente, não sou a única a ter insónias na família – nunca foi grande fã de televisão (nela via apenas os debates políticos). Eu ficava sempre admirada como sabia tanto do país e do mundo, vivendo em Dornelas do Zêzere e tendo-se tornado pastor, a guardar as suas cabritas diariamente, depois de anos de trabalho árduo nas Minas da Panasqueira e da sequela da silicose nos seus pulmões.

Passo por um Parque Verde, pelo Jardim Amália – também faz sentido – e cruzo-me com poucas pessoas, algumas fazem a sua corrida, uma ou outra passeia o cão. Um deles arrasta a dona…Um casal de namorados recolhe-se da chuva num toldo de um café fechado, ela poisa a cabeça no ombro dele e observam a chuva.

Atravesso a rua e oiço uma gargalhada seca e forte. Irónica até. Acho curioso…

Desde que deixei de votar em Oleiros, voto numa escola em Lisboa, igual a tantas outras, mas que fica mesmo em frente à Mesquita Central de Lisboa. Antes de entrar reitero sempre o pensamento que voto por mim e por todos os outros, de qualquer credo, raça ou orientação sexual. Por todos.

Um jovem voluntário ajuda uma senhora a subir as escadas. Há gel desinfetante à entrada. Não há fila, já vim mais tarde para a evitar. Tudo me parece bastante organizado, voto e saio pelo lado oposto ao que entrei. Passo pelo campo de futebol da escola, que me parece, como todos os que não têm pessoas, assustador, entretanto anoiteceu, o que ainda o faz mais sinistro. No final deste, um ecrã luminoso de uma entidade de saúde privada que julgo ter encerrado, mas que tem escrito a letras néon: “Vai ficar tudo bem, faça a sua parte”. Parece um sinal. E acho o momento curioso, novamente.

Atravesso novamente a rua e novo ecrã, de uma grande superfície comercial, fechada pelo enquadramento da pandemia, mas que continua a apelar ao consumismo desenfreado. Em tempos difíceis e de crise económica instalada e a crescer assustadoramente, também não deixa de ser estranho.

Os namorados encontram-se no mesmo toldo, a chuva ainda não amainou, pelo contrário, intensificou-se. Ela já não tem a cabeça no ombro, desta feita é ao contrário. Continuam a observar a chuva…

Subo a calçada, desta vez um pouco mais exigente para as minhas pernas, fartas de sedentarismo e de casa, passo novamente pelo parque e pela prisão. E penso em todos os sinais, coincidências e metáforas associados a toda esta jornada. Volvo a minha cabeça para o céu e sinto a chuva. Que maravilha há em sensações tão simples…nunca uns pingos de chuva me souberam tão bem…

Chego a casa e dispo o casaco e boina encharcados. Descalço os sapatos. Lavo as mãos.

Penso na sorte que tenho em poder subir uma rua sozinha, sem medo ou violência. Na sorte que tenho em ter uma casa, quente, para me acolher, na sorte que tenho em poder ir comer uma fatia de bolo de banana para me reconfortar. Na sorte que tenho em ter os meus por perto, sem ter tido necessidade de mudar de país por questões de catástrofes climáticas, violências ou guerras.

Ligo a televisão. Vou fazer um chá para acompanhar o bolo de banana. Oiço as primeiras projeções das eleições. E penso como é imperativo estarmos atentos e agir.

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.