Crónica Petricor

Tertúlias precisam-se…

[Imagem retirada da net]

Nunca gostei de “clubes de meninos” e de “clubes de meninas”.  Quando mais jovem, nunca gostei de fazer parte de grupos, fossem na altura os “betos”, “freaks” ou “punks” (sim, quando fui estudar para Coimbra com 14 anos ainda os havia…). Nunca fiz parte de nenhum grupo em particular. Fui convidada por diversas vezes e ao longo da vida para fazer parte de partidos políticos e é por não me sentir “alinhada” em tudo com nenhum que nunca aceitei parte destes (e sou apartidária, não apolítica!). Tenho amigos de direita e de esquerda e todos me acrescentam sempre muito. Porque são meus amigos e porque a diversidade de opiniões e pontos de vista é o melhor ensinamento e crescimento que podemos obter.

Os grupos homogéneos, sem diversidade de pessoas e ideias, às vezes fomentam o “pensamento único” e este é um grande problema dos tempos que correm. Porque é assustador e porque nos limita a todos. E porque cria cada vez mais sociedades deseducadas e por consequência mais desiguais.

Reparem se não há cada vez menos discussão, tertúlia e conversa (exceptuando nas redes sociais, e na maior parte das vezes por pessoas encapotadas num nickname qualquer). Cada vez é menos visível alguém falar abertamente sobre a sua opinião, e esta ser aceite como opinião, tout court. E quando é assim todas as posições mais radicais também se instalam (e felizmente a extrema-direita não venceu recentemente as eleições em França dando alguma esperança à Europa). O grande desafio dos dias de hoje é comunicar a todas as gerações o direito que todos temos a darmos a nossa opinião, sem agrilhoamentos ou represálias. Em Portugal acresce o de darmos o verdadeiro significado ao 25 de abril, o de permitir ter liberdade de expressão em toda a sua plenitude e para todos, homens e mulheres (ou qualquer outro género), de direita ou de esquerda (ou de nenhuma delas), de qualquer raça ou religião. A pluralidade de opinião, em liberdade.

Um grande desafio. Esse e o da comunicação não violenta, consciente e capaz de chegar ao outro. Nesta “modernidade líquida”, como diria o filósofo Zigmunt Bauman, a fragilidade dos laços e a simultânea necessidade de criar laços cria a incapacidade de amar e crescentes níveis de insegurança, tanto nas relações amorosas, familiares e sociais. 

É verdade que os períodos de confinamento e pandemia não ajudaram, mas precisamos de estar mais juntos, fazer mais tertúlias, ter mais discussões públicas e cívicas sobre assuntos que a todos dizem respeito, promover reuniões de amigos e familiares. Precisamos de dar tempo e atenção ao outro, com escuta ativa, sem julgamento e com alguma “desaceleração” (sobre este tema talvez partilhe a minha opinião num outro artigo). De promover relações mais “sólidas”!

Que venham tempos de reunião, risos e discussão! E de pluralidade, a todos os níveis.

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.