Crónica

Há dias assim,

Há uns minutos atrás enviei uma mensagem ao Nuno Caldeira a dizer que não tinha nada preparado, que hoje não ia escrever. Normalmente ou já tenho textos escritos, ou ideias, que são revistas e depois seguem a caminho da Resina.

Acontece que hoje acordei azulada, não é nada e são muitos nadas, é o rescaldo das eleições, é o ciclone em Moçambique, são os confrontos nos Países Baixos, são as manifestações na Rússia, é o que vejo, o que leio, o isolamento, a falta da claridade, são dias menos bonitos, mais desanimados, são hormonas, são as cenas da vida. Não tendo religião, não sendo isotérica, não sendo dada a praticas meditativas, tenho outras estratégias: um café e um cigarro, às vezes ajudam, uma música alta, mais alta do que é desejável, uma chávena de chá a escaldar, ou umas carreiras de tricot, são algumas das minhas estratégias, cada um terá as suas.

Hoje, assim que pus os pés no chão, percebi que não ia ser fácil, às vezes vem de dentro, acumula-se e nem sempre é a última gota que transborda o copo, é paradoxal, mas é assim, pelo menos comigo. Sei as generalidades todas, as que também eu digo quando percebo alguém menos bem, que melhores dias virão, que amanhã há-de ser melhor, etc. Percebi que hoje tenho de ter paciência comigo mesma, que nem eu me aturo!

Comecei a trabalhar sem ter tomado banho, perdi o acesso ao email corporativo, não gosto de responder a assuntos de trabalho do email pessoal, interrompi e lá fui, achei que lavar o cabelo ia fazer-me bem, mais tempo de água quente, mais vapor, talvez me clarificassem as ideias, voltei a sentar-se na secretária de cabelo molhado, para tentar o truque informático salva vidas: desliga e volta a ligar, nada. Levantei-me olhei para o telemóvel, e vejo uma mensagem com uma notícia triste, faleceu um colega com quem trabalhei vários anos, não somos nem fomos amigos, aliás tive com ele várias crispações de trabalho, mas isso não tem importância nenhuma, liguei para uma amiga, e claro que lamento a perda, a morte súbita de alguém que não tinha cinquenta anos que tem filhos, que é ele próprio filho e marido de alguém, é sempre lamentável e trágico.

Depois de desligar a chamada telefónica, pensei, quando está mau, lembra-te que pode sempre ficar pior. Se a minha manhã já não estava luminosa, ficou-o menos ainda. Tirei o tal café e fumei um cigarro, alivia, mas não melhora. Fui secar o cabelo, na esperança que um liso sedoso me melhorasse qualquer coisa, lutei como é hábito com as escovas de enrolar e alisar e com o calor do aparelho, mas o máximo que consegui foi um liso aparente, sem grande brilho, que vai encrespar-se assim que me aproximar da janela, provavelmente aqui já terei perdido os leitores homens, por falta de compreensão desta realidade capilar, paciência. Conformei-me e desliguei o aparelho, com a certeza de que fiz o melhor que podia. Creme na cara, um corretor nas olheiras e um bocadinho de rimel, nada, igual, o mesmo ar macilento. Azar, pensei.

Voltei para a frente do computador, respondi ao que era urgente, liguei ao técnico de informática para lhe pedir que me socorra com o acesso ao email corporativo, abri uma sessão para lhe permitir o acesso remoto, e vou ter que sair.

Enviei a tal mensagem a dizer que hoje não ia mandar nada, que não tinha nada escrito, e fui almoçar, às vezes ajuda. Favas guisadas com entrecosto e arroz branco, a comida de conforto, a mim conforta-me! Assim na sua própria hipérbole. Depois na sua habitual gentileza o Nuno insistiu para que escrevesse, e eu aceitei, disse-lhe que estou arreliada, e que a crónica ia sair arreliada.

Há dias assim, hoje é um deles. Este ainda vai a meio, é a vida, os dias nem sempre são bonitos, nem luminosos. Depois de acabar o que tenho que fazer, se não melhorar, vou por a música alta, e dançar como se ninguém me estivesse a ver, talvez o meu mal seja este a falta de dança!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.