Crónica Petricor

Afetos Áureos

Todos os anos pelos meses de agosto e setembro faço balanços de vida. Gosto de balanços e de reflexões. Em alguns casos (muitos) gosto até de os fazer com quadros mais ou menos elaborados de excel, não fosse eu uma apaixonada pela matemática e pela ajuda que nos traz a analisar tudo.

Nestes meus anos de vida o que mais aprendi foi que o que realmente importa são as pessoas. As pessoas de quem gosto. As pessoas que gostam de mim. Aquelas com quem partilho ideias e me encontro. Aquelas que não reconheço e que não entendo. Aquelas com quem me cruzo em todas as viagens (internas e externas) e aprendo. As que me contradizem e me dizem que estou errada. As que me fazem rever as minhas convicções. As que me confrontam com os meus preconceitos. Aquelas em que me revejo de muitos modos. 

As que gosto mais? Indubitavelmente as que têm espinha dorsal e coração puro. As coerentes e sábias. As que me ensinam, pelo exemplo, a ser uma melhor pessoa todos os dias.

Tenho a sorte de me ter cruzado com pessoas assim ao longo desta minha vida. E agradeço. Agradeço a Deus por isso e por me ter presenteado com a competência de as guardar em mim. Às vezes o cruzamento com determinadas pessoas pode até parecer coincidência, mas como diria o Einstein: “as coincidências são a forma de Deus se manifestar”…

E como estas coincidências se manifestaram (e tenho a certeza que continuarão a manifestar-se), gosto de agradecer por elas.

Agradeço aos meus pais, primeiro por se terem encontrado, e depois pelo exemplo que me deram. Por me terem educado no respeito pelo outro, nunca nos achando superiores, mas também não inferiores ao outro. 

Ao meu pai agradeço o respeito aprendido pelos animais e pela natureza. O respeito pelos mais velhos. O gosto pela diferença. O agradecer sempre, mesmo em alturas mais desafiantes da vida.

À minha mãe agradeço a sensatez e a sensibilidade transmitidas. O sentido de humor. O exemplo de resiliência que não conheço em mais ninguém.

Aos dois, agradeço o sentir-me amada. Pelos dois. Até hoje.

Agradeço à minha avó paterna a imagem que me deu de mulher forte, capaz de tudo, e à materna a capacidade de ressignificação, levando a vida sempre com o sorriso mais terno que conheci na vida.

Ao meu avô materno agradeço a veia comercial. E o ensinar-me a ter respeito pelos horários. Ao meu avô paterno agradeço as primeiras uvas morangueiras e os primeiros morangos dos oldeiros. As conversas intermináveis perto do fogão.

À restante família agradeço o exemplo de honestidade, trabalho e capacidade de olhar para a vida sempre com a força necessária, apesar das suas vicissitudes e rasteiras pontuais. 

Aos primos agradeço as brincadeiras, as partilhas e conversas em que fomos crescendo e continuamos a crescer. 

Aos amores que tive o terem-me ensinado a escutar a vida e o coração. 

Ao amor que tenho o seu olhar para mim e para o mundo. E comigo.

E aos meus amigos? O fazerem o favor de ser meus amigos, apesar de todas as minhas imperfeições e falhas. A sabedoria dos afetos e o crescimento conjunto. O serem adequados a mim, assim!

Feito o balanço desta minha vida, que espero vá mais ou menos a meio, só sinto acrescentos. Adições.

Na matemática existe um número áureo, também chamado número de ouro ou proporção divina, que não é mais que uma constante real algébrica irracional denotada pela letra grega (PHI), em homenagem ao escultor Phideas, que a teria utilizado para conceber o Parthenon. Há quem advogue que Pitágoras foi o primeiro a descrever esta proporção divina, há aproximadamente 500 a.C. para explicar a harmonia, a alma e o cosmos. 

Se tivesse que escolher um número para agradecer à vida neste momento seria este, o número áureo, que contém alma e sabedoria divinas.

Esta crónica parece-vos um pouco mais pessoal que o habitual? É, mas também estamos na silly season…ou será soul season?

Bom mês de agosto para todos vós, com muitas proporções áureas!

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.