Crónica

Vejo-te a febre no olhar

Vejo-te a febre no olhar

Antevejo dores azuis

Que não precisas nem de padre nem de amigo

Que corres sem saber de quê

Sem saber para onde

Quando dizes que precisas de pensar mais e melhor

Que te disseram que és tudo

Perguntas para quem?

Fizeram-te crer que podias ser tudo, sem te treinar a resistência

Disseram-te que o tapete era macio, dizes que afinal é de pedras

Dizes que precisas de saber onde é o fim

Dizes também que todos precisamos de saber quando saltar

Que corres de olhos abertos

Que só se fecham quando os pés descolarem do chão

Que os dias passam a ser sonolência de novembro

Sempre que as insónias se dobram na tua almofada.

Oscilas entre a apatia e a vontade de devorar tudo

Que estás desacertado, ou estará o mundo?

Quando dizes que todos temos um amor que não manteremos

Que para sempre é curto

Antevejo-te a febre no olhar

Quando dizes que é mentira

Que o amor não nos salva, que afinal não pode tudo

Tal como os outros, também te imaginaste mas não te vês

Que te quiseram como te imaginaram

Mas nunca te receberam como és.

Quando dizes que morrer é mais fácil

Tens todos os silêncios carregados de ruído

Os outros não te vêem e tu não os escutas

Dizes sempre que a boca deve saber a limão e a malmequeres e não ao último trago de vinho

Sabes onde a tempestade é calma

Que é para lá que vais

Quem já dançou sobre a água também pode caminhar

Eu continuo a ver a febre no teu olhar

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.