Crónica

Uma Páscoa sem as toalhas brancas a cheirar a alfazema

Pela segunda vez consecutiva interrompemos as celebrações da Páscoa na casa dos meus avós, há muitos anos que nos sobram lugares à mesa, é verdade que chegam novas vidas à nossa vida, mas as ausências não se preenchem nunca. Mais do que qualquer outra celebração, que o próprio Natal, a Páscoa foi sempre passada em Oleiros, no lugar das memórias afetivas.

Chegávamos à quinta feira e eram quatro dias de festa, de mesas postas, ora na cozinha que servia de apoio aos pratos, ora na sala. Um tira e põe de mesa, de serviços de pratos e copos, de toalhas e guardanapos de pano imaculados e a cheirar a alfazema, que só arejavam por estes dias. Respeitavam-se as tradições e não havia carne em nenhuma das refeições até domingo, a avó cozinhava bacalhau e peixe de todas as maneiras que conhecia, num esforço próprio de matriarca para agradar. Havia sempre bolos e sobremesas, e taças e tacinhas de amêndoas, de bombons e chocolates, que saíam e voltavam da sala para a cozinha para dar lugar aos comensais, e que voltam no final para cima da toalha de renda, a mesa estava sempre posta por esta altura, havia flores que o avô colhia dos próprios canteiros e que alegravam as mesas e mesinhas lá de casa.

Havia a procissão das velas e todas as cerimónias religiosas, era sempre necessário conciliar os horários com os amigos, que por serem católicos e praticantes tinham maior rigidez, eu perdia-me sempre nos calendários litúrgicos, entre a via sacra e a cerimónia de lava-pés, fazia-me falta a banda na procissão, que não se podia tocar música, diziam-me, que nem os sinos dobram, apenas se ouvem as matracas. As imagens que saiam na procissão sempre me foram místicas e um pouco assustadoras, sempre achei que Maria Madalena ia ali perto do Senhor Crucificado, era uma imagem romântica, para mim era a personificação do amor carnal. Até que um dia alguém me desfez os sonhos e os suspiros, quando me disse que não, não era Maria Madalena, era São João Batista! A Vila só não era mais taciturna por aqueles dias porque já o sol brilhava até mais tarde, já havia sinais da primavera e isso sentia-se nas pessoas, sempre foram as pessoas a dar cor aos dias.

E por aqueles dias vinham primos e tios para as cerimónias e ficavam para jantar, era o renovar da esperança, gosto sempre de constatar que as tradições religiosas acompanham as pagãs e tantas vezes profanas, a Aleluia é para os católicos o renascer, já a própria Primavera é uma conspiração universal para nos fazer acreditar na renovação, a natureza explode de exuberância.

No domingo acordávamos com a Banda Filarmónica que percorria as ruas da Vila anunciando a ressurreição, era dia de Cabrito Estonado e de Maranho, o almoço era o mais festivo de todos os dias, um banquete e um festival para as papilas gustativas. Difícil era explicar nas composições e redações dos primeiros anos de escola o que eram estas iguarias, desconhecidas para muitos. (Tenho uma redação dessas algures num caderno com as palavras Cabrito Estonado sublinhado a vermelho, pela Tatão, a minha professora da primária!)

Bom, este ano passei na casa dos meus avós, vazia, e abri uma das gavetas onde se guardam as toalhas, encostei o nariz a uma delas, a alfazema está lá nos saquinhos que a minha avó espalha, mas não cheiram da mesma forma, é possível sentir-lhes um ligeiro e envergonhado aroma a alfazema, mas nada tão vibrante como foi no passado.

Outras Páscoas virão!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.