Crónica

O Beijo – dissertações sobre a arte

O beijo, parece que hoje é o dia dele. Tranquilizem-se que não vou escrever sobre o porquê de para mim, um beijo ser um beijo e não ser um mitigado beijinho. Tão-pouco vou escrever sobre as alterações químicas que um beijo provoca, nem sobre as libertações de endorfinas e os seus poderes analgésicos, menos ainda sobre o prazer que causa. Também não me ocorre escrever sobre os bons e os maus beijos. Descansem que também não vou aborrecer-vos com os beijos apaixonados, os beijos maternais, ou os outros.

Vou escrever sobre o dia em que parei à frente do mítico quadro de Gustav Klimt, O Beijo. Numa viagem relativamente curta à Áustria, num dia frio de inverno austríaco, saímos do hotel de manhã cedo, sabíamos o que queríamos ver, por onde queríamos passear, o que queríamos comer, e o que deixávamos para o improviso e a surpresa, para vaguear e nos perdermos por lá, fazemos sempre isso, é preciso perdermo-nos sempre que viajamos. O meu nível de abstração e alheamento começou logo à saída, quando ia sendo atropelada por uma bicicleta, perto de um semáforo, nem ouvi a campainha que o ciclista teimava em tocar, valeu-me um forte puxão no casaco para me conseguir desviar a tempo.

Viena é uma cidade palaciana, onde pouco parece real, não fossem as pessoas e as suas vidas normais, quase toda a arquitetura parece ter sido desenhada por um autor de filmes para crianças. Quando entrei no Belvedere já há muito que as borboletas tinham aberto as suas asas dentro da minha barriga e na minha cabeça, um desassossego pequenino que se agigantava com a alegria de ali estar. O quadro estava em destaque numa coluna, ao invés de numa parede, nem muito grande, nem muito pequeno, no tamanho certo, mas muito impressionante e simbólico, cheio de luz, o dourado prolifera em toda a tela, fiquei parada vários minutos, um homem e uma mulher num abraço sem fim, a ode ao amor romântico, a cara do homem mal se vê, apenas uma sobrancelha os recortes do nariz, a bochecha concavada pelo beijo e a cara da mulher é de uma fragilidade e subtiliza, de uma entrega impressionante. As mãos intrigam-me sempre, pela simbologia e pela representação. As flores no cabelo dela são encantadoras, será no cabelo ou será na cabeça? Há beijos que nos enchem a cabeça de flores! E ali fiquei muitos minutos até ser varrida por uma guia que se queria aproximar com um grupo de espanhóis, para dissertar sobre o quadro.

Dali para a frente, não me recordo de mais nada dentro do Belvedere, acho que só voltei ao mundo quando cheguei ao jardim e pude respirar. Até lá passaram-me muitas ideias, sem que as pudesse parar, coisas como: Caramba, a pintura enquanto manifestação artística é sempre uma abstração, porque parte de uma conceção: a do criador, para outras: as dos apreciadores, dos que a veem. Não há diálogo formal, apenas subreptício (a menos que visites uma exposição pela mão do artista). Nem mesmo a pintura realista é uma representação da realidade, (desculpem a figura de estilo associada), é sempre subjetiva, resulta sempre numa interpretação.

O Beijo é uma pintura universalista, no sentido em que todos já beijamos e já fomos beijados, mas o que conta, para mim, é o lugar para onde vais, para onde te deixas ir quando estás ali, perante aquele imenso dourado. Tão bom quando a tua imaginação é suficientemente rica e tem tantos recantos para onde podes viajar dentro dela, assim o/te permitas e não é exclusivo da pintura, é transversal à arte em geral, à música, à literatura, etc.

Bons beijos!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.