Crónica Petricor

“Tio Meno, traz moins?”

Há expressões que nos acompanham a vida. Ou por terem sido ditas enquanto crianças e os adultos terem achado piada, ou por terem sido associadas a um qualquer momento que nos marcou a existência, ou ainda porque são daquelas que nos trazem um sorriso ao rosto só de pensarmos nas pessoas que estavam connosco e no-las diziam. Por isso lhes chamo “expressões emocionais”.

“Tenho mais de mil fomes” é uma minha que reflete a primeira razão. Os meus pais acharam piada quando a disse numa viagem que parecia não terminar. Numa daquelas viagens em que os meus tios se juntavam num qualquer lugar deste nosso país para fazerem um piquenique de família e em que havia a maravilhosa comida do meu saudoso tio Zé, cozinheiro do outro mundo. Até hoje acho que nunca comi omeletes de camarão como as dele. Há primos que adoravam os bifes. Tudo era bom! Tudo!

Nessa viagem eu estava cheia de fome e ia dizendo: “Estou com fome! Estou com fome!”. Já farta de o dizer e de ouvir os meus pais repetir “estamos quase a chegar” e isso nunca mais acontecer, saiu-me um “estou com mais de mil fomes”. Não sou uma pessoa paciente e ao que parece em criança já não o era. A expressão continua a existir entre mim e a minha mãe sempre que a fome nos assola o estômago: “Tenho mais de mil fomes!”

Da segunda razão, sempre que acordo num dia mais preguiçoso, digo a seguinte lengalenga: “que bem, que bem que me sabe começar assim o dia na camita”, expressão com que o meu pai me acordava, seguida de beijos. Continua aqui, entranhada, assim como a saudade do carinho e da ternura dele.

Da terceira guardo também a que dá título a este artigo: “Tio Meno, traz moins?”. Tenho a sorte de ter sido a primeira neta e sobrinha de ambos os lados, paterno e materno. Assim fui muito mimada. Costumo dizer que “ainda bem, o mimo faz-nos bem”, ao contrário do que dizem por aí. Sentirmo-nos amados e amarmos é o melhor que o mundo tem. Talvez por ter sido a primeira, sou, indubitavelmente, a sobrinha preferida de alguns dos meus tios. Sorte a minha, pois conquistar alguns corações é também uma honra e um privilégio.

O meu tio Arménio faleceu há um par de semanas. Quando era miúda ouvia-o dizer que gostava de mim como se fosse uma das suas filhas. Tenho a certeza que assim era. Os meus primeiros anos foram vividos com ele por perto, em tempos de emigração dele e dos meus pais. Ao que parece, com 3 ou 4 anos, eu gostava muito de amendoins. E ele mimava-me trazendo pequenos pacotes de amendoins quando me visitava. Quando aparecia à porta eu perguntava sempre: Tio Meno, traz moins?”.

Esta expressão continuou a ser um código entre nós, ao longo dos anos, sempre que nos víamos.

Falei pela última vez com o meu tio, por chamada virtual, no início deste ano. Ainda tive a oportunidade de lhe dizer que tinha saudades dele. Respondeu-me: “tens, filha? Eu também.” O meu tio não morreu por covid, mas esta pandemia tirou-me a possibilidade de o visitar na sua doença, de me despedir dele aos poucos, de o ter abraçado. Sei que sabia que gostava dele, mas queria ter-lhe dito isso uma vez mais. Dizer-lhe o quanto admirava a sua força, a sua coragem e as suas ganas. Dizer-lhe que admirava a sua sensibilidade, pouco óbvia, bem como a sua capacidade de olhar para as coisas simples da vida.

Já morreram em Portugal 16.827 pessoas por covid. Um quinto das mortes na primeira semana de 2021 foram atribuídas a esta doença, indica o INE, que registou 3.634 mortes no total, mais 830 do que a média do mesmo período entre 2015 e 2019.

Em 2020 morreram mais de 123 mil pessoas em Portugal. É o valor mais elevado de óbitos desde a sistematização de dados, na década de 1960. Nem todas morreram por covid. Mas todas foram afetadas por ele. Elas e a suas famílias e amigos.

Não pudemos visitar doentes, despedir-nos dos nossos, fazer o luto que é necessário. Que tenhamos a capacidade de nos lembrarmos dos nossos e de tentar fazer estes lutos com carinho. O enquadramento da pandemia é difícil, mas a raiva ou a angústia só trarão escuridão ao nosso coração. Relembremo-nos deles, acolhendo-os na nossa memória, com amor. É o amor que nos salva, de tudo. Até das mossas emocionais que uma pandemia traz.

Ainda hoje gosto muito de amendoins. E sempre que os como, lembro-me do meu tio Meno. Esteja onde estiver, sei que continua a trazer-me moins.

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.