Crónica

Tanto para armar

Às vezes questiono-me sobre a bondade daquelas pessoas que são a favor da liberalização total do armamento à sociedade civil. Digo isto porque, acreditando que desejam, verdadeiramente, viver num mundo melhor, têm que ter aquela alma absolutamente impoluta, casta, e Cândida, impermeável a pensamentos ímpios e bélicos, e acreditar que todos os outros cidadãos de bem (termo frequentemente usado pelos mesmos, para caracterizar não sei bem que tipo de pessoas) se pautam por regras de conduta idênticas.

Não gosto de futebol, mas acho que seria bastante cinéfilo ver um Benfica Porto, com toda a gente armada nas bancadas, e aos 97 minutos, o árbitro decidia marcar um penálti por uma falta ocorrida quase no meio campo, acho que qualquer western mais frenético, ficaria a anos-luz do cenário que vos proponho idealizar (haja criatividade suficiente).

No trânsito também seria interessante, depois de bastos e aguçados impropérios, alguns dirigidos à progenitora do condutor em causa, talvez a magnum 44 por estrear, não ficasse adormecida no porta-luvas. Eu confesso que seria uma pessoa bem mais comedida que esses selvagens com as emoções à flor da pele, só usaria a minha, em situações que nos levam ao limite, como alguém que escrevesse fizes-te, ou partilhasse qualquer citação do Afonso noite-luar, Chagas Freitas ou Raul Minh-alma, fora isso, seria a paz, e uma assíntota no seu caminho natural, rumo à perfeição do mundo.

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.