Crónica Opinião

Gosto do digital, mas quero os meus concertos pós-covid

Será que, após o aparecimento de uma vacina para o Coronavirus, o público dos concertos e festivais voltará a sentir-se confortável ao aglomerar-se como dantes? Os costumes adquiridos durante o período de distanciamento social e isolamento irão perdurar para além do tempo que se considere necessário, simplesmente pela força do hábito? O crescente consumo de conteúdos online irá definitivamente reconfigurar as práticas de desfrute de cultura?

Não sei. E provavelmente ninguém conseguirá prever o impacto exacto desta pandemia.

Esta semana tive uma conversa com um amigo que me levou a equacionar – pela enésima vez – a data de lançamento do primeiro single do meu próximo disco… Ele está no “meio da música” e envolvido tecnicamente no disco, sendo também, alguém da minha confiança e cuja opinião tenho em grande consideração. Resultado da conversa, confirmei, não só, que eu não sei nada sobre a melhor estratégia em tempo de Corona, mas também, que ninguém parece saber. É que, parece que fomos obrigados a parar e estamos a guardar os trunfos, para “jogar” no meio digital… rápido, frenético, imaterial… Esse meio que, como um ralo de uma pia, se vai encarregar de fazer desaparecer em 7 dias, tudo o que para lá mandarmos. E lá fora, um vírus a limitar-nos os movimentos e a deprimir o presente.

Espero ansiosamente a possibilidade de tocar ao vivo com mais regularidade. Manter a dita boa forma dos concertos frequentes, manter-me em movimento e sentir-me vivo.

Para já, e enquanto não vemos surgir uma nova vaga da doença – algo que ninguém deseja – acho que vamos continuar a ver concertos mais esporádicos e, dado os preços dos bilhetes e a gratuitidade, concertos manifestamente insustentáveis. É a cultura a parecer uma despesa, algo que sabemos muito bem que não é. A cultura-investimento, tão necessária para ultrapassar os tempos de isolamento e a manter-nos na condição de seres humanos, parece estar a precisar de ser salva.

Até lá, enquanto todos nos tentamos salvar, quem vai salvar os concertos ao vivo? Nós mesmos, se mantivermos bem presente a certeza de voltarmos para a rua, para perto uns dos outros, e para melhor, logo que tal seja possível.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.