Opinião

Sobre isto de sermos Natureza

Respondemos à correria dos dias com um gradual regresso à Terra, à calma e bem-estar que a Natureza nos faz sentir. Quando nos conectamos com a Natureza estamos a ligar-nos ao ciclo natural da vida, ver crescer, nutrir, adaptar, assistir a tudo isto em silêncio e em união com o que nos rodeia. E podia a Terra ser mais altruísta? Dar sem querer nada em troca, oferecer-nos de volta a vida que nela semeamos e agora vemos crescer. 

Voltarmo-nos para a Terra é celebrar a relação sistêmica que existe entre o nosso bem-estar e a Natureza. É também um reflexo da necessidade de nos relacionamos, de cuidar, de sentirmos afecto e de nos entendermos.

Um jardim é em fracções nem sempre iguais, parte  Natureza, parte artifício. Nasce da terra e muitas vezes cresce inspirado pela mão humana. Esta combinação de forças opostas o que é senão um reflexo da nossa condição humana? O velho debate entre o que é determinado e o que é construção e fruto das nossas interacções. 

Queremos perceber a vida? Basta olharmos para a Natureza e nela encontramos o sentido das coisas, a lógica da nossa essência e condição. Talvez venha daí a escolha de nos conectar mais e mais com a Natureza. Quer seja um canteiro pequeno, um vaso no parapeito de janela, um grande jardim ou um campo verde e vasto, procuramos as ligações com as nossas raízes.

Tenho em mim esse fascínio pelo campo, foi onde cresci e me fiz pessoa. Ficaram-me gravados na memória fragmentos que muitas vezes evoco quando me lembro que somos feitos de saudade. Os aromas do alecrim, do urze e da alfazema; a harmonia colorida de um campo de margaridas; o cheiro da terra molhada.

… o odor quente da terra molhada, esse cheiro vertiginoso que faz vibrar as narinas de todos os animais e nenhumas palavras foram capazes de explicar até hoje. Diz-se que é a terra a chamar-nos. Mais exacto seria dizer que somos nós a pedir-lhe que fique, porque nesse relance a reconhecemos plenamente, porque respiramos o seu cheio mais profundo, o da conjugação criadora do pó e da água, o lodo e a lama, o caldo da vida.” 

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.