Opinião

Sobre eutanásia e a sociedade que queremos construir

Confesso que por estes dias senti uma grande tentação em escrever sobre o óbvio. No entanto e porque durante os próximos tempos teremos certamente opiniões sobre o óbvio em dose mais que suficiente decidi voltar a escrever sobre esse tema que, nem sempre em doses iguais, tanto me inspira e inquieta que são as coisas da vida.

Numa conversa que seguia um tom tão informal que impediu qualquer forma de preparação, uma amiga partilhava que o avô teria decidido avançar com o pedido de suicídio assistido. Este era o avô de quem ela tanto me falava e sempre sem esconder aquele brilho nos olhos de quem partilhou tantos momentos felizes. Mas era também o avô que ela tinha visto adoecer e perder, também ele, o brilho que sempre carregou nos seus próprios olhos.

Longe do racional e num mundo Covid que nos nega algumas das mais significativas formas de sentirmos e partilharmos emoções, ficou-me a vontade de a abraçar. Surpreendeu-me a naturalidade com que a conversa se deu e acima de tudo o respeito que senti pela vontade própria.

Perguntava a esta amiga se o avô teria tido uma vida feliz. Não sei porque precisei dessa confirmação para ficar em paz com uma decisão que em momento algum teria sido minha ou mesmo dela. A resposta foi tão espontânea que me fez perceber que as ideias que sempre defendi teriam sido construídas sem a perspectiva da realidade de quem vive e sente esta como a única opção.

Há quem diga que poderá ser a decisão mais importante da nossa vida. Há ainda quem afirme, cheio de certezas, que a voz do povo interessa, ou que deve ser decidido por quem foi eleito para legislar. Ouvimos muitas perspectivas e quantas mais melhor, mas hoje foi a primeira vez que conheci a versão de quem vive esta história na primeira pessoa. E isso mudou fundamentalmente a forma como agora penso e sinto este assunto.

Ser a favor ou contra, ter dúvidas ou demasiadas certezas são tudo reacções que devem ser sempre entendidas partindo da história e contexto de cada um. A nossa experiência diz mais sobre as nossas opiniões do que as próprias palavras que usamos para as explicar.

Hoje aprendi uma lição, quando a liberdade individual, o ser feliz e viver uma vida com propósito são o mais importante, ficamos em paz com as nossas escolhas. Mas isto não se ensina, não se discute em debates televisivos, nem em artigos de opinião.

Faz parte do nosso ADN cultural e hoje percebi que há ainda um longo caminho a percorrer para que, mesmo se despenalizada, a eutanásia seja, em determinadas condições, uma decisão vivida como natural.

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.