Opinião

Sobre a razoabilidade da razão

No meu dia-a-dia passo uma parte significativa do tempo a tentar arquitectar consensos, construir pontes e planear os pilares que farão da mudança um vetor de crescimento. No entanto, nem sempre me lembro que esta ideia, às vezes esotérica de encontrar consensos também é válida cá fora, num mundo onde nem sempre o contrato social é assinado pelos dois lados. E desconfio que não estou sozinha nisso. 

Estaremos nós a perder a capacidade protocolar de sermos tolerantes com ideias que não criem ressonância com as nossas? Como se nós próprios fossem assim tão fiéis às ideias que o nosso génio concebe. Sempre achei isto da congruência uma característica muito sobrevalorizada e às vezes até demasiado asséptica de tanta perfeição que enaltece. De uma coisa tenho a certeza, nunca serei outra vez a mesma versão de mim própria.

E quando é que o mundo se tornou tão umbiguista? Sempre fomos assim, ou o advento da voz anónima potenciou o desenvolvimento desta capacidade como se uma mutação darwiniana se tratasse? Tenho medo que estejamos a viver uma era em que nos permitimos reprogramar para rejeitar tudo o que não nos é igual. Quando é que deixamos de ver a diferença como um ganho?

Acabamos sempre a escolher um dos lados da barricada, onde confortavelmente decidimos sentar-nos e atirar argumentos em modo 280 caracteres para os quais não esperamos resposta. Quando é que deixámos normalizar esta cultura de trincheiras e de exaltação da oposição? Nos dias que correm tudo é binário, tudo é “ou sim ou sopas” e sem darmos por ela, é a voz de quem grita mais alto que conta.

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.