Crónica Geral

Abraço com nível mínimo de risco

A naturalidade com que passei a reservar distância das pessoas deixa-me preocupado.

Ora, eu, adepto de um bom abraço de camaradagem e fraternidade, nunca achei que a pandemia me conseguisse mudar os hábitos, até porque prometi a mim mesmo que iria fazer os possíveis para contrariar a tendência do afastamento com a minha aproximação aos amigos e família (assim que fosse realmente seguro – naturalmente!). Estava enganado, sobrestimando a minha resiliência. Não totalmente, mas percebi recentemente que tenho que me manter vigilante para ir reconhecendo o que vai mudando em mim com o passar dos meses. Aquele levantar da mão tímido e desconfortável do início, que nem chega a ser cumprimento nem nada, passou a dar lugar a um mero aceno de cabeça – Olá, como vai? – Sacudo a cabeça ligeiramente ou anuo de forma espontânea, não sei bem, é natural. E normalmente acompanho o gesto com um sorriso “empenhado” por debaixo da máscara, que provavelmente se verá também nos olhos.

O cumprimento reduziu-se. Encolheu e precisaremos de o reavivar no futuro. É que a nossa forma de nos aproximarmos socialmente faz parte e molda a nossa identidade. Será uma pena perder os dois beijinhos que dávamos por tudo e por nada. Estávamos tão mecanizados para arrancar aos beijos às pessoas, que já conhecíamos e que acabávamos de conhecer, era igual! E era automático: primeiro esquerda, depois direita… Zás, já está. Só alertar para as práticas homólogas internacionais, e em particular para a italiana que, por haver por lá tanta ou mais tendência osculatória e por ser simétrica à nossa, pode gerar situações desconfortáveis (ou agradáveis para alguns, não sei…).

Pois bem, onde isto ia. Temos que fazer alguma coisa para recuperar este traço identitário, quer vejamos pertinência académica na conservação da prática, ou apenas porque é bom abraçar e beijar. Na Resina, temos uma “Festa do abraço” prometida, assim que nos seja seguro e responsável assinalar oficialmente (oficiosamente, vá) a retoma à normalidade. Acho que nenhum de nós sabe ao certo no que consiste essa festa – para além do facto de nela terem que existir abraços – podendo ser celebrada junto à ribeira, numa mesa de pedra, num piquenique à moda antiga: ovos verdes, pastéis de bacalhau, maranhos… Enfim… Eu continuava.

Para que aconteça da forma que todos desejamos – seja esta festa ou outra qualquer – não será certamente para realizar este ano nestes moldes, mas é bom irmos pensando nisso e manter bem viva a intenção. Estou com esperança que a cautela nas interacções sociais de todos seja suficiente para que a vacinação produza efeitos de forma a não termos que aguentar uma nova onda. A ver vamos, e mantenhamos viva a ideia dos beijos, abraços, maranhos e ovos verdes.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.