Opinião Petricor

Síndrome de domingo à noite

Não gosto de domingos à noite, nunca gostei. Sempre me souberam a final de um doce, doce que está a acabar na taça…

Desde os 14 anos que os domingos à noite significavam viagens, deixar a casa, os pais…depois ao longo da vida significavam viagens para um qualquer dos locais onde trabalhei. Não me interpretem mal, adoro viajar, mas estas viagens significavam um ganho, mas sempre, sempre uma perda. A de deixar amigos, amores, e ter que ir…

Questiono-me se a vida não é sempre assim, deixar, perder, para avançar, para ir…

E pergunto-me se os jovens que estão a estudar fora da sua residência de hoje também sentem o mesmo. Nesta vida atual repartida entre aulas virtuais e aulas presenciais, pergunto-me se continuam a sentir estas perdas e ganhos.

Lamento que os recentes universitários não tenham neste ano tantos “ganhos” como os que tivemos: latadas, horas e horas passadas em conversas com amigos com muito pouco distanciamento social, e em que a liberdade individual não era castrada por um vírus medonho.

Este ano entraram 50 964 estudantes só na primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior, são mais 15% do que no ano passado e mais 21% do que em 2015.

No ano em que acabei o meu curso havia apenas 6% da população com o ensino superior. Portugal, tem hoje, segundo a Pordata, cerca de 20% da população com ensino superior (no total da população com 15 ou mais anos), mas ainda tem 6% da população sem nível de escolaridade. Segundo a mesma fonte, em 2018, havia 81846 diplomados, 58% deles eram mulheres. Muito trabalho feito, mas muito ainda a fazer…

Este ano entraram mais 50 964 estudantes, mais 50 964 possíveis engenheiros, médicos, veterinários, dentistas, fisioterapeutas, gestores, etc…todos eles farão parte da geração que estará no ativo quando a minha geração estiver na reforma. 

É uma geração atenta às questões sociais e ambientais, pelo que tenhamos esperança num futuro melhor, apesar de todos os revezes.

Que sejam muito felizes neste percurso, que nos molda a vida. Onde fazemos amigos de vida e para a vida. E que tenham muitos domingos à noite com perdas e ganhos. 

Até hoje, os domingos à noite, nesta vida adulta e que espero madura, continuam a saber a nostalgia. Até hoje, e sempre que vou a Oleiros, no regresso no domingo à noite, sinto o mesmo no estômago, a tal sensação de perda. Talvez seja esta sensação que nos permite dar valor ao que deixamos, para dar abertura ao que vamos encontrar.

Seja onde for que estejamos, que saibamos ser casa, com as inevitáveis perdas e ganhos. E tenhamos a capacidade de construir uma casa, para nós e para os nossos jovens. Merecemos!

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.