Crónica

Escutar o vinho

O avô António tinha uma pequena quinta com vinha, situada na zona saloia, de onde ninguém era, não tínhamos raízes nem ascendentes por lá, comprou-a por caso, ou talvez não, quando quis sair de Lisboa e passar o resto dos seus dias tranquilo. Não procurou intencionalmente voltar às suas origens, como faz a maior parte, julgo até que procurou exatamente afastar-se delas, terá querido esquecer-se de onde estavam os seus, terá querido romper com a pertença, nem sei se alguma vez se terá sentido parte desse lugar, (nasceu no Cabeçudo, perto da Sertã) não tive oportunidade de lhe perguntar porquê, as minhas memórias com ele são muito infantis, eu tinha dez anos quando o avô morreu.

Neste lugar a terra era laranja e quando não chovia, o chão abria brechas onde nos cabiam vários dedos. Visitávamos os avós aos fins de semana, a casa colava-se à estrada, o portão de entrada ficava logo ao lado do alpendre que se erguia na frente revestida a azulejos azuis rectangulares e salientes, quando o sol brilhava pareciam safiras gastas e baças.

A zona do lagar e das pipas era a confluência de dois rectângulos, dois pavilhões perfeitamente geométricos que vistos de cima faziam um “L”, à saída desta zona estava o Pop, um cão preto não muito grande, nem muito pequeno, com os olhos azuis que brilhavam no escuro, ficava ali, porque logo de seguida era a capoeira e a coelheira, e ao Pop cabia guardar as galinhas e os coelhos. Quase em frente à porta da capoeira havia um poço grande, que estava coberto por uma grande tampa de cimento. À frente estendia-se a horta, havia couves, alfaces, tomates e feijoeiros que cresciam agarrados às armações em “V” invertido que deixavam pender os seus feijões orgulhosos. Para lá da horta havia o pomar, com macieiras, laranjeiras e pereiras, as árvores rainhas desta região, a pera rocha era soberana, tão rija como doce, durava muitos meses às escuras nas prateleiras lá de casa. Para lá disso havia um pequeno riacho, uma nascente e uma fonte quadrada, revestida a azulejos azuis-cueca, esta água era abençoada por uma santa, não me recordo qual. Para lá da fonte erguiam-se alguns eucaliptos e depois do vale no topo mais a norte a quinta fechava-se com uma mancha de pinheiros, que só se viam do terraço, por cima da sala das pipas, que nos estava interdito.

O avô chamava-me sempre para um passeio, afinal eu era a neta mais crescida, o meu irmão e a minha prima, preferiam entreter-se logo à entrada, no pátio entre a casa e os pavilhões, junto ao limoeiro, onde havia uma gaiola no vão das escadas que subiam ao terraço, e por aí ficavam a olhar os pássaros exóticos que nela habitavam. Eu ia, pela mão do avó António, que apesar de ter deixado de cortar e de coser fatos, era Alfaiate, e vestia-se sempre de calças vincadas, camisa, gravata, colete e casaco, não podia ser diferente, se toda a vida trabalhou com esmero para vestir os seus clientes, sempre atento às tendências do corte, das lapelas, ao tamanho dos ombros, da forma como se rasgavam os bolsos, se se cobriam ou não com abas, com ele não podia ser diferente. Acontece que o avô António não era um homem alto, antes pelo contrário, nem magro, também pelo contrário, e ficava assim, patusco, com a sua cortesia nos trajes e nos modos e os grandes óculos de tartaruga no nariz, era uma figura e tanto! E lá íamos, eu e ele, saíamos dos pavilhões, o Pop acompanhava-nos aos saltos, cão irrequieto aquele, sempre a atravessar-se à nossa frente, sempre uns passos adiante, olhava-nos de lado para perceber se o passeio ia ser grande, ou se já voltávamos para trás. Normalmente íamos até à fonte, para ver a extensão que os olhos alcançavam, depois regressávamos, pelo meio do pomar, por entre um canavial que a emoldurava, mas a grande ansiedade era a aproximação à coelheira, aí o avô assobiava e o meu irmão e a nossa prima juntavam-se a nós, para ver a maternidade, para ver os coelhos pequeninos. Lá dentro era escuro, as coelhas que tinham sido mães há pouco tempo ficavam nas gaiolas mais a cima, protegidas pela rede de losangos, elas e os seus bebés, a pergunta era sempre a mesma, se podíamos dar colo, o avô deixava sempre, tirava três coelhos pequenos, nós ponhamos as mãos em concha e lá os segurávamos, junto ao peito, para sairmos dali a negociação era dura, “- só mais um bocadinho!…”, às vezes ainda íamos buscar os ovos às galinhas, que pousávamos num cesto à medida do muro do lagar, os outros dois corriam de volta ao pátio, mas eu sabia que o melhor estava para vir, e o melhor era entrar na sala das pipas.

O avô parava o passo, colocava o dedo indicador ao de leve nos lábios, para me lembrar que ali não se podia fazer barulho: “- O vinho repousa melhor em silêncio” isso bastava para diminuir os meus risinhos e a exaltação que ainda trazia dos coelhos pequeninos, e lá íamos os dois, havia prateleiras com pipas gigantes, outras apenas grandes e as últimas eram pequenas, na parede oposta repousavam já as garrafas arrumadas na enorme colmeia de tijolo, o aroma daquele pavilhão era único: cheirava a sumo de uvas, a enxofre, a flores, e a madeira húmida. Explicou-me num desses dias que, quando vinho fosse mais crescido aí até podíamos cantar e dançar. O avô escrevia nas pipas umas coisas que eu não conseguia ler, mas que eram claramente códigos secretos, escrevia-os a giz, os restos de giz que antes teriam deslizado a fazer marcações sobre as fazendas de caxemiras e lãs. Havia um pequeno escadote de madeira, com dobradiças perras que o avô António desdobrava, sem grande destreza e ao qual subia, com menos destreza ainda, para destapar algumas pipas, as que por aquela altura ainda fermentavam, depois era a minha vez, o avô segurava o escadote e eu subia, já lá no alto, não tão alto, eram só dois ou três degraus, encostava o ouvido à abertura da pipa, e escutava o vinho que parecia rezingar, numa ladainha baixinha, mas zangada.

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.