Crónica

Que bom que é (não) ter fotografias quotidianas da adolescência

Dito assim, escrito assim, pode parecer que tive uma adolescência rebelde, recheada de episódios que prefiro que não tenham expressão fotográfica, não é o caso. Fui uma adolescente “normal”, às vezes até aborrecida. Assim mesmo, prefiro ter memórias seletivas de alguns desses instantes.

Na minha adolescência as nossas fotografias ainda não eram auto-retratos, e estavam longe de ser selfies, estavam associadas a momentos mais formais, ou até solenes: dias de festa, casamentos, baptizados, primeiro encolhimento: os penteados, ui, as roupas, ui, ui. Até se ía ao fotógrafo para uma sessão de retratos. Vá uma ou outra fotografia que vinha da escola, os alunos em duas ou três filas e a professora numa das pontas. De resto havia pouca margem para improviso, não era altura para macacadas, tudo compostinho, alinhado, pressentindo o olhar treinado do fotógrafo que não ficávamos bem, tirava logo outra, vá uma terceira para garantir que ninguém ficava de olhos fechados. O instante era valorizado, ficava registado era revelado e seria exposto ou nos álbuns de família, ou numa moldura. 

A máquina fotográfica era um objeto que ocupava espaço e tempo nas nossas vidas adolescentes, demasiado preocupadas a viver e a experimentar. Implicava logística, comprar rolo, instalá-lo, para não poucas as vezes dizer: -Ups, não tem rolo! Ou:-Não ficou preso… ou ainda abrir a tampa e expor o filme à luz, que arruinava as fotografias mais giras da história daqueles nossos dias, depois ainda havia os negativos que possibilitavam reproduções, já mais tarde faziam-se provas, e já só se revelavam as que valiam mesmo a pena!

Há dias em conversa com uma amiga, conseguimos a proeza de não chegamos a nenhuma conclusão, o tema eram os cortes de cabelo com franjas, que sim, que tínhamos franja nos primeiros anos da faculdade, franja desalinhada, franja composta, e ali ficamos vários minutos a esgrimir argumentos franjários, para no final ela suspirar: – Que pena não termos fotografias para comprovar…Numa empatia inicial dei-lhe razão, para logo a seguir pensar exatamente o contrário: Que fixe não termos fotografias!… foi um ponto de partida para cada uma de nós desfiar argumentos convictos sobre se tínhamos ou não franja, e assim recordámos vários momentos, de uma festa em que levamos o cabelo apanhado, em que o namorado da altura era A, ou B, foi um sem fim de memórias-livres sem pictograma, que caso existisse ou não teríamos tempo para consultar os álbuns, ou inventaríamos outra qualquer desculpa. Além da margem para a memória individual, mesmo de momentos que vivemos juntas. E isso é bom!

A desmaterialização da fotografia, que hoje tiramos às dezenas, vá cada qual sabe qual a unidade que usa para quantificar as vezes que se carrega no obturador, alterou-nos o quotidiano, anda connosco para todo o lado, a função do retrato vem incorporada no aparelho que usamos para comunicar, com som, imagem e ainda para guardar os pixéis, que enviamos para todo o lado, mas que deixámos de imprimir no papel, temos fotografias sobre tudo e sobre nada, mas nas molduras e nos álbuns persistem as mesmas de há vinte anos.

Hoje o tamanho do nosso braço permite-nos juntar e perpetuar no ecrã o que consideramos importante minuto a minuto, ou fracções dele, aplicar filtros, e enviar, não há negativos, nem papel, na maior das vezes o destino é uma qualquer nuvem, nem a moldura no pechiché da avó, nem sequer um disco externo.

Se eu e a minha amiga nos perdemos na nossa adolescência com a conjectura da franja, se hoje fossemos adolescentes, tenho a certeza que haveríamos de juntar as selfies todas e ver a franja a crescer-nos! 

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.