Crónica

“Se quiser tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa”

Trabalho num restaurante na Rua Braamcamp, que celebra exactamente hoje, um ano de existência. O anúncio repentino desta madrugada deu conta da revolução que acabou por obrigar os meus patrões a cancelar os festejos simbólicos: a oferta de um Porto e cravos aos clientes. Os cravos não são coisa que se guarde sem água, e por isso, se não é para abrir o restaurante, há que trazê-los para casa. Ou assim espero, que ainda estou no metro a caminho do Rossio, com o braçado floral.

Saio do metro, atravesso a praça D. Pedro IV na diagonal e chego à rua do Carmo, onde encontro os tanques e os militares. A revolução a passar por aqui!, embora, à parte do ralenti do aparato militar, tudo pareça relativa e estranhamente silencioso.

– Celeste, Celeste! – o som era alto e vinha lá no meio.

Esgueiro-me, acelero o passo, e logo um encontrão de alguém que se atravessa na minha frente me lança uma boa parte dos cravos ao chão. O sortido vermelho e branco saiu com os caules orientados ao acaso… Baixo-me e demoro-me inevitavelmente com a recolha… a pressão nos joelhos flectidos e os olhos postos no chão distraem-me dos sons dos motores dos chaimites em volta e da paleta cinza e verde da atmosfera militarizada da rua.

Agora, que tenho as flores de volta aos braços e me preparo para o esforço adicional nos meus joelhos com 40 anos, levanto finalmente os olhos. Sem me dar tempo para focar, apercebo-me da sombra repentina de alguém que acaba de se aproximar e trava as suas botas quase em cima de mim.

– Está a acontecer, é agora, Celeste!

– Pedro! O que fazes aqui? – volto a deixar cair os cravos e caio também eu, imediatamente num abraço instintivo.

– Isso digo eu! Vai para casa rápido, que isto não é seguro!

– Seguro já não é há muito, Pedro, e para casa estou eu a ir, que fazes tu aqui?? Não tens medo? É o vício da fotografia outra vez?

Sem me deixar continuar, olha-me profundamente nos olhos e sinto-lhe logo a emoção nas primeiras palavras:

– Não é vício nenhum da fotografia Celeste, é precisamente o medo que me traz aqui. O medo que um dia as pessoas se esqueçam do que está a acontecer, percebes? Sabes bem que não é preciso muito para que a memória se apague e nos lixe a todos de novo!

– Pedro… também as tuas fotografias se vão apagar com o tempo, tens que aceitar e fazer o que é mais sensato neste momento… anda, vamos. Deixa isso agora, não gosto de te ver aqui.

Lado a lado, vamos caminhando em silêncio, contornando o que há a contornar, ao som dos cliques e avanços de filme da máquina fotográfica. A mudança de rolo faz-nos parar no Largo do Carmo e sou obrigada a esperar. A espera não é longa, mas naquele contexto, parece. Tenho tempo para pensar em toda aquela situação. O Pedro é meu amigo desde a escola primária. Confidentes mútuos em todo o tipo de circunstâncias, levantávamos frequentemente suspeitas sobre um namoro secreto. Nunca foi coisa que nos preocupasse e chegávamos mesmo a brincar com esse tipo de situações. Conheci-lhe todas as paixões – ajudei até num par de vezes – e acho que ele pode dizer o mesmo de mim.

– Os cravos! Deixei os cravos encostados ali ao fundo. Vou lá buscá-los, não saias daqui – e volto aos meu pensamentos.

Nos últimos tempos, desde que o casamento dele acabou, tem-se dedicado ao convívio com alguns membros de uma certa elite intelectual. Algo estranho e novo na vida dele, mas arranjou novos amigos que o levaram a interessar-se pelas artes, pela vida social, política e claro, pela fotografia que o traz hoje para aqui.

Continuo a divagar, pego finalmente nos cravos e interrompem-se-me os pensamentos com um sonoro “Tem um cigarro?”. É um militar, do alto do tanque.

– Não, não tenho, mas… – Faço uma pequena pausa e instintivamente pego num cravo vermelho. Estendendo-lhe a mão.

– Se quiser tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa.

Ele olha-me nos olhos, aceita e coloca o cravo no cano da espingarda. Antes de eu conseguir perguntar aos seus colegas se eles também querem, já eles me estão a estender as mãos. Resolvo distribuí-los por todos eles e por todos os outros que venho encontrando no caminho de volta para o Largo onde volto ao encontro do Pedro.

– Porque demoraste tanto? Estava para ir ver de ti. Mas, pronto, já está, mais 36 fotos prontinhas a disparar. E desta vez, a cores. Por falar em disparar, Celeste, já reparaste naquele soldado com um cravo metido na espingarda? Olha, e outro! Que é isto, não posso acreditar, fica aqui que eu volto já!

O Pedro arranca freneticamente de câmara em punho e desaparece, engolido pela pequena multidão que começa agora a aproximar-se.

Espero longamente até começar a sentir uma névoa mental. Sinto-me como que a adormecer, com as palavras a falhar para descrever este momento…

A névoa deixa de ser uma ideia real e dá rapidamente lugar a uma luz muito branca que me leva a esfregar os olhos. É cedo, a manhã ainda é azulada e estranhamente calma. A revolução, que tinha acabado de se dar, parecia ter sido apenas um sonho.

Só pouco depois, quando finalmente saí de casa, reparei nas capas dos jornais a confirmar o sucedido. Os nomes, as imagens…Otelo, Salgueiro… e um poético casamento de espingardas com cravos vermelhos registado por um talentoso fotógrafo que pedia o anonimato.

O que aconteceu desde a longa espera no Largo do Carmo até à manhã de hoje é algo que ainda não consegui perceber. A volatilidade da memória e a névoa persistente faz tudo parecer ter sido apenas um sonho. Todos nós quisemos mudança e todos nós a quisemos sem armas. Todos nos enlevámos com os cravos, fruto das circunstâncias e de uma sensibilidade poética colectiva encantadora.

É um sonho, um longo sonho de 47 anos, para o qual é preciso continuar bem acordado.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.