Crónica

Dores de crescimento

Antes de escrever o que quer que seja, uma nota introdutória: O que escrevo abaixo não é uma apologia à “boa educação”, tão-pouco uma receita, ou uma moralidade mais virtuosa que outras. São apenas reflexões sobre o crescimento e autonomização dos meus filhos.

Há uns dias em conversa com uma amiga, ela perguntava-me: Como estás a lidar com a ausência do M? Depois de me perguntar quantos anos é que ele tem (já fez 17 anos, lá). Apesar de não pensar no assunto de uma forma diária, é óbvio que penso, que pensamos nisso, mas percebo que pensamos e vivemos esse assunto sem dramas, como consequência da nossa forma de estar, da forma como chegamos até aqui.

Na parentalidade temos alguns princípios norteadores: verdade, autenticidade, autonomia, responsabilidade, respeito por si mesmos e pelos outros, e depois, toda uma série de tentativas-erro. Tentamos não sobre valorizar o erro, o erro é sempre uma nova possibilidade de crescimento. Sempre valorizamos mais aquilo em que se transformavam, do que os resultados académicos que alcançavam, ou não. Sempre nos preocupamos mais com a forma como se relacionavam com os seus pares e com os adultos de referência, do que com a velocidade de leitura ou o raciocínio matemático que alcançavam. Procuramos ajuda sempre que foi necessário.

Sempre nos preocupamos em não ter discrepâncias entre a teoria e a prática, porque eles são mestres em encontrar essas dissonâncias: não se come com as mãos, no dia em que nos viram a comer entrecosto com as mãos, o olhar de ambos procurou imediatamente o nosso, o como é? Lia-se-lhes no pestanejar. Em casa não pensamos em uníssono, temos várias vozes, e há muita dialética, desde sempre, os porquês vieram-nos em força e persistem, sempre explicamos, dialogamos, ouvimos e falamos, sabemos que autoridade e autoritarismo são coisas diferentes, e sim, terminamos algumas conversas à beira da exaustão do diálogo com o paternal: Porque sim!

Procuramos responder às perguntas todas, optamos por não assobiar para o lado e fingir que não ouvíamos: quando com um ano e poucos meses contamos ao M que estávamos à espera de um bebé, que na minha barriga crescia um mano, a primeira pergunta que fez foi: -Como foi aí parar? Engolimos ambos em seco e percebemos que a empreitada era grande: um livro logo ali à mão ajudou-nos muito: “como se fazem os bebés”, os beijos e as carícias que os crescidos trocam entre si, a forma como se misturam fazem bebés que crescem e nascem. Foi uma colher pequenina, voltamos sempre que nos chamaram a este e a outros temas, como as diferenças anatómicas entre mim e eles, sem alaridos mas com a naturalidade que conseguimos. Como quando o L entrou pela casa de banho adentro, sem bater à porta, e vendo uma caixa de tampões me perguntou se eu depois de pôr aquilo conseguia fazer cocó?! Desta vez engoli uma gargalhada, abri o folheto que vem com a caixa e expliquei-lhe que não era no rabo que colocava o tampão, que nós, as meninas e as mulheres temos um outro lugar onde se colocam os tampões sempre que o sangue sai, todos os meses, e quando me preparava para continuar a explicação, que se era aquele sangue que permitia fazer bebés…ele deu meia volta ao triciclo e saiu da casa de banho, percebi que daquela vez a primeira colher lhe bastava, que a segunda era demasiada.

Confiamos neles, ensinámo-los a confiarem em si próprios. Sabem desde cedo que a liberdade lhes vem com a responsabilidade proporcional que demonstram, sempre que não correu bem, voltámos atrás, assertamos o passo, voltamos a confiar, e eles corresponderam. Sabemos e praticamos desde cedo que quando os responsabilizamos eles respondem com responsabilidade, no sentido inverso quando os infantilizamos eles tornam-se (ainda) mais infantis.

Tentamos não subestimá-los, sempre lhes demos a verdade no tamanho da colher que podiam tomar, e isso envolveu lidar com doenças prolongadas, com alterações de estado de alma e com a morte. Preparamos, antecipamos, explicamos o que iria acontecer, na proporção dos seus entendimentos, ensinamos a não deixar nada de bom por dizer, a estimar e a cuidar em vida, os nossos nunca viajaram, morreram. Mas não nos morreram, isto é, recordamo-los sempre, com espontaneidade. Têm relações vinculadas e autónomas com os seus adultos significativos, inclui-se aqui a bisavó, com 96 anos, a quem ligam e visitam sem precisarem de nós.

Quando nos mostram as músicas que ouvem, nós ouvimo-las com eles, não é fácil, mas é necessário, como queremos que se interessem, ou que escutem outras músicas se nós não nos interessarmos pelas suas? Sim, ouvem connosco The Simths, Sérgio Godinho, U2, etc e nós conhecemos com eles Jimmy P, Valete ou Nenny. Lemos juntos Sophia, hoje discutimos filosofia. É uma troca, há reciprocidade, foi criada e é alimentada sempre que não nos distraímos.

Precisamos de todos os que nos rodeiam para os educar, gostam e admiram muitos dos nossos amigos, escutam-nos e procuram-nos para ouvirem as suas opiniões. Nós acolhemos e gostamos dos amigos deles, procuram a nossa casa e a nossa companhia, julgo que se sentem bem por perto e nós retribuímos. Não acreditamos numa parentalidade muito doutrinal nem impositiva, foram fazendo as suas escolhas, escolhemos muito pouco por eles, impusemos menos ainda, apenas limites e resistência. Acreditamos que se formos autênticos e genuínos se percebem bem os limites, não somos os seus melhores amigos, mas até hoje temos confiado uns nos outros. Temos certo que nos magoamos mais numa mentira do que numa verdade por mais dura que ela seja.

Foram pela nossa mão a concertos, a peças de teatro, a exposições e bailados, corremos com eles, andamos de bicicleta com eles, jogamos à bola com eles, fomos e vamos com eles para dentro de água, a bater os dentes, nem sempre nos apetecia, mas também não era um esforço, sempre tivemos prazer a disfrutar da vida com eles.

O L chama-me “crinjalhona” (cringe em Inglês), quando sente vergonha alheia, por mim, quando canto alto, ou danço em casa. Posso bem com isso, sei que a travessia do deserto da adolescência é longa, mas há esperança. São as dores de crescimento, mais as minhas que as deles.

O M enviou-nos no domingo, dia 25 de abril, umas fotografias de Howth e falamos de Liberdade.

Estamos longe de estar tudo feito, mas tem corrido bem. E de repente ao ler pela última vez o que eu própria escrevi, percebo que esta crónica liga de uma forma não intencional, o dia da liberdade que celebramos esta semana e o dia da mãe que se celebra para a semana.

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.