Crónica

Primitivos

A relação do ser humano com o corpo, o seu e o do outro, é experimentada após o instante da concepção. Somos o resultado de dois corpos unidos, de trocas de calor, odores e fluidos. O momento da criação, a fusão plena entre duas carnes, origina um novo ser que será transportado ao longo de nove meses no útero materno. No ventre, caverna húmida de transporte e abrigo, há mistura e partilha e é isso que permite o labor minucioso da gestação. O toque e a troca estão entranhados em nós como estão as células, acompanham-nos do princípio ao fim: quando somos amamentados, quando nos carregam ao colo, quando caímos e alguém nos limpa as feridas, quando beijamos, quando damos as mãos num concerto, quando entramos no outro, quando outro entra em nós, quando nos secam as lágrimas, quando nos abraçam e quando nos amortalham. Que mundo se começa a esboçar quando o medo do toque e das troca, quando o medo da própria fórmula da vida se instala?
Numa sociedade digital onde o afastamento físico já é notório, a chegada de um vírus que inibe múltiplas formas de contacto, amplia a possibilidade assustadora do indivíduo encapsulado na sua redoma tecnológica e ultra-higiénica. Da existência comunitária, suja e primitiva das cavernas até à materialização deste presságio aterrador, não terá passado assim tanto tempo. Pelo menos, tempo suficiente para nos desumanizar, apesar de todos os avanços tecnológicos e científicos. No âmago, seremos sempre magnifica e perturbadoramente primitivos, precisaremos do toque e da troca e há beleza nisso e também haverá a salvação.

Autor

É feliz com a cabeça a flutuar em palavras ou as mãos mergulhadas em tinta.