Crónica Poesia

Os dias longos

Lembras-te dos dias longos?
As tardes intermináveis a ouvir o riacho
O sol saturava a Madeira do alpendre
E eu adormecia a ouvir os sons do mundo

Quando surgias,
os teus pés descalços Rangiam as tábuas do soalho
Caminhavas na minha cabeça
E eu acordava a pensar que sonhava

Ia jurar que foi ontem, que foi hoje
Por tão vívidas memórias
Se corrias pelo campo até ao horizonte
Porque nunca saíste da minha cabeça?

Quando a manhã nascia
e o sol despontava no horizonte
Corria até ao fundo do Vale
Sabia que chegarias como quem dá formas ao mundo

Mandávamos mergulhos de cima do muro
Eu não gostava que fosses mais destemida que eu
Tu gozavas quando me sentias mudar de assunto
E a rir, mandavas-me água para a cara

Nadavas para a margem, corrias para a cerejeira
Mas nunca saíste da minha cabeça
Saíste da água, saíste do campo
Mas nunca saíste da minha cabeça
Saíste da vila, saíste do país
Mas nunca saíste da minha cabeça

As cerejas nunca mais tiveram sabor
Naquele tempo sabiam a tardes de calor
Sabiam a sorrisos cúmplices e pés descalços
Sabiam a insónias porque nunca mais amanhecia

À noite, quando a terra devolvia o calor
Deitava-me no chão e olhava as estrelas
Todas as noites elas desenhavam o teu rosto
E na escola tinha que ouvir que o sol era o centro de tudo

Quando a manhã nascia
e o sol despontava no horizonte
Corria até ao fundo do Vale
Sabia que chegarias como quem dá formas ao mundo

fingia que o dia não nascia naquele instante
Fingia que o mundo estava acomodado há horas
Fingia que os teus passos não foram os primeiros segundos
Acho que nunca chegaste a saber
Que aquele rio, aquele sol e a sombra daquele carvalho
Chegavam sempre quando tu

Nadavas para a margem, corrias para a cerejeira
Mas nunca saíste da minha cabeça
Saíste da água, saíste do campo
Mas nunca saíste da minha cabeça
Saíste da vila, saíste de ti
Mas nunca saíste da minha cabeça

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.