Crónica

Oxalá

Voltei a Oleiros de forma não clandestina, assim escrito e como preâmbulo podia ser bom, e a partir daqui desenrolava-se toda uma historia de clandestinidade de madrugadas envoltas em nevoeiro, de pessoas de gabardine a fumar, de nomes de código, de senhas e contra-senhas, e por aí fora, mas não é disso que se trata, o que quero dizer com isto é que voltei para ver a minha avó e levá-la a almoçar a casa ao fim de um ano de pandemia.

Durante este ano fui várias vezes a Oleiros, nunca fui clandestina, fui cumprindo sempre as regras da DGS, acontece que ia com um objetivo claro, predeterminado e cumpria-o à risca, se era necessário ir a casa buscar alguma coisa, ia, parávamos o carro, saiamos, entravámos e seguíamos, não havia deambulações, não víamos ninguém e quase ninguém nos via. Não deixamos de visitá-la sempre que foi possível, pelos quinze minutos-meia hora que era permitido, através de um vidro, nós de máscara, ela a ouvir cada vez menos e a precisar cada vez mais de nos ler os lábios, não só as palavras, mas também a doçura e as expressividade que deixamos de dar uns aos outros por andarmos de cara tapada.

Desta vez, e já lá vai mais de uma semana, que estas coisas apesar de não serem ciência-histórica, precisam do seu distanciamento, para nos fluírem nas palavras certas e não ficarem totalmente travestidas de estados de espirito, como se isso fosse possível…bom, na véspera da visita a última recomendação que me fez, foi que não nos atrasássemos, que fossemos pontuais à chegada, educou-nos com as suas origens na Beira Baixa, mas os ponteiros de um relógio suíço que sempre cumpriu a pontualidade britânica. Aquilo não era uma recomendação pedagógica, aquilo já era a sua amiga: ansiedade a falar pelas suas palavras.

Chegamos à hora marcada, parecia uma criança naqueles dias da visita de final de ano, a saída do Lar assemelhou-se muito a um resgate sem pagamento. Quando transpôs as portas de vidro inspirou por detrás da máscara uma golfada de ar, como quem emerge depois de um mergulho longo, pediu que parássemos no jardim, claro que sim, e ali ficamos num banco à sombra, distantes o que pudemos, pelo tempo que pudemos, pediu que lhe trouxéssemos um café e uma água, saboreou o primeiro como se fosse o último, trago a trago, a água nem a abriu. E enquanto contemplava as mesmas árvores que ali estão há dezenas de anos mas com o espanto de um descobridor que chega a um território longínquo, logo começam os avistamentos, primeiro uma vizinha querida, que quis saber de dela, logo depois um outro senhor também utente do Lar, a passear, falou-se sobre a estranheza dos momentos atuais, mesmo para quem como eles já tinham atravessado pelo menos uma guerra e os seus resquícios. Distanciei-me um bocadinho, para contemplar a vivacidade que ganhou naqueles minutos de liberdade, na sua vila, no jardim de sempre.

Quis subir a pé do jardim até casa, e o caminho que fizemos assemelhou-se muito a uma procissão, com muitas paragens, muitos acenos e muitas conversas curtas mas essenciais, com as pessoas de sempre, com os olhares semi encobertos, mas que ainda assim nos permitiam o reconhecimento facial necessário. Perguntava pelas famílias, pelos filhos e netos, ou na ordem inversa, pelos pais e pelos avós. O nosso cortejo demorou muito mais do que o habitual, mas o suficiente para os reencontros que coincidiram naqueles minutos. Quis à passagem pelo Zé do Café, falar à minha Fernanda, mas conformou-se sabendo que não estava, não de lamuriou nem um segundo da subida até a casa, estava feliz por reencontrar as pessoas que lhe são queridas.

O que sentimos ali, naquele dia, durante aquele passeio breve e apesar de tudo assético no que aos afetos diz respeito, foi uma grande vontade das pessoas se abraçaram de se tocarem e de verbalizarem o quanto sentem a falta uns dos outros! Havia, arrisco dizer, uma espécie de euforia no ar, como se a vila tivesse sido polvorizada por uns pozinhos mágicos; tranquilos e ânimos refreados, não aconteceu apesar das expressões apontarem nesse sentido.

Ao contrário do que eu esperava em todos aqueles encontros e tão habitual nas conversas corriqueiras antes da pandemia, falou-se muito menos de doença e de morte, e muito mais de vida, de esperança. Estaremos já num contra círculo de otimismo e bonomia coletiva? Oxalá

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.