Crónica

O caminho faz-se caminhando

Fotos: Martim Melo

Que o caminho se faz caminhando, já ouvi várias vezes, agora o que leva um filho meu, nosso, do “alto” dos seus dezassete anos, depois de ter estado um ano letivo inteiro na Irlanda, a caminhar sozinho 800km, num ano de pandemia? Isso já não sei…Na parentalidade temos muitas perguntas para as quais não temos respostas nem imediatas, nem fechadas. Temos sim, premissas universais entre as quais: a dialética, a confiança, a liberdade e a responsabilidade. As últimas duas funcionam num binómio.

Quando ele nos disse, em meados de maio, ao telefone de Dublin, que quando regressasse queria ir fazer o Caminho Francês de Santiago, primeiro rimos, depois ficamos um bocado atónitos, passamos à fase de não darmos grande importância, pensamos até que teria combinado com os outros estudantes internacionais. Embora saibamos desde cedo que quando mete uma coisa na cabeça não há quem o demova, tem tido várias estratégias ao longo dos anos: conta primeiro, escuta e discute os argumentos contra e depois faz, mas também já optou por contar só depois de fazer, ora dada a impossibilidade lógica de o fazer primeiro e depois contar, quanto mais não seja porque precisava da nossa autorização escrita para sair do país, lá partilhou antecipadamente. Já em setembro passado quando sopramos vento para que voasse, sabíamos que a sua ânsia de conhecer, de experimentar, de ir, é-lhe maior que o coração. 

Somos dialéticos e procuramos aprofundar porquês: Alguma busca espiritual, crise de fé? Lá por casa não somos crentes, logo, não temos nenhuma prática espiritual, mas somos o mais possível a favor da autoderminação. – Falta-te autonomia? – Vais mesmo andar 800kms? – Tens alguma coisa que queiras contar, falta-te abertura ou coragem? – Vais acompanhado e dizes que vais sozinho? Depois das perguntas mais lógicas, armadilhamos umas mais desconcertantes: – Não preferes ir beber copos com os teus amigos? – Ir à praia é pouco desafiante? – Aos dezassete anos tens pachorra para ti e para os teus pensamentos durante um mês? Aumentamos o desconcerto das perguntas: – Mataste alguém e vais esconder o cadáver esquartejado ao longo de França e Espanha? Riu-se por alguns momentos e respondeu apenas que queria conhecer gente diferente, que está muito bem sozinho, sim, que também gosta de beber copos com os amigos, mas que durante estes trinta dias não quer negociar nada com ninguém, a não ser consigo próprio, que quer conhecer os seus limites e ultrapassar-se a si próprio, auto bastando-se durante 800kms, um mês inteiro, o conceito da moda: sair da sua zona de conforto. A bisavó, que tem dificuldade de aceitação inicial para estes voos, pediu-lhe que fosse antes a Fátima: -É mais perto e a avozinha fica mais descansada…ele sorriu-lhe apenas e mandou-lhe um beijo.

Preparou-se sozinho, optou por ler e pesquisar de forma autónoma, escolheu o trajeto, programou pouco e não quis falar com quem já fez o Camino, roçou a arrogância própria e de certa forma desejável da adolescência, o eu sei. Comprou o que precisava, os ténis amaciou-os vários dias antes, pesou-se para saber qual o peso que a mochila deveria ter, desapegou-se dos seus pequenos privilégios burgueses e restringiu o essencial à cubicagem-peso que levou, fazendo caber ainda dois livros. Fez contas à vida, ao dinheiro que tinha, ao que precisava, auto propor-se para vir trabalhar um mês comigo, para acrescentar os euros que faltavam nas suas contas. Aceitei e ele cumpriu mas espantei-me, porque ultrapassou o que se propôs fazer. Pedi-lhe que se certificasse que podia entrar nos albergues sozinho, sem estar acompanhado por nenhum adulto e que verificasse as regras relativamente à pandemia. Se calhar crescer é escolher por si próprio as experiências que quer ter, mais do que continuar as que outros escolhem por, ou para nós.

A viagem começou com a ida de avião, para Toulouse, para aí ficar três dias, conhecer a cidade e seguir para uma pequena vila chamada: Saint Jean Pied de Port  – pequena nota: de Francês sabe dizer : bon jour, merci e nada mais…nunca teve Francês na escola. E foi, arrendou um apartamento no centro, privilegiando poder cozinhar, em vez do maior conforto que um hotel lhe poderia dar.  Apanhou três comboios até à tal vila de onde iniciou a sua caminhada. Já lá vão quase três semanas, já passou os Pirenéus, já esteve em Pamplona, percebeu que ser Basco é diferente de ser Espanhol, nas suas palavras, já passou por Burgos e por Leon, envia diariamente duas ou três fotografias de paisagens de cortar a respiração, com o Sol ainda a nascer, fez os primeiros dias com um rapaz militar francês, falando entre si em Inglês, elogiou-lhe a resiliência, terminou um dos dias na companhia de um rapaz que acabou Teologia este ano, tem vinte quatro anos e que fará os seus votos no final do Camino, que o escolheu para partilhar uma refeição resultante das oferendas que recebeu, recusando que comprasse pão fresco, que comeriam o que tinham: -Um banho de humildade! Também pelas suas palavras. Já adiou uma das jornadas para poder cicatrizar uma bolha num pé, já teve que caminhar para outra aldeia, porque naquela os albergues estavam cheios, já teve que ir comprar comprimidos para a dor de cabeça, já optou por ficar num quarto sozinho, para poder descansar melhor, já ouviu um pai de seis dizer e pregar que as desgraças do mundo são culpa da maçonaria, ainda não comprou o chapéu de abas que lhe recomendamos, lava diariamente sua a roupa à mão, já preparou várias refeições para si e para partilhar, prefere pão de sementes e cereais porque dura mais tempo. Partilha connosco vários pensamentos em voz alta, fá-lo muitas vezes para se organizar, já pensou que gostaria de chegar a Santiago de Compostela a dia 25 julho, dia comemorativo de Santiago, além de ser ano Jacobeu, mas também já disse o contrário, que prefere chegar depois, conforme programou para ver a Praça e a Catedral mais vazias. Sabe que no final terá o avô e o tio- avô à sua espera na Praça da Catedral em Santiago, como combinaram.

Segue com a sua mochila às costas e dentro de si leva tudo o que precisa, ainda faltam quase duas centenas de quilómetros para chegar ao destino que se propôs, percebemos pelas fotos que desfruta da viagem, que continua atento aos pormenores, que está disponível para conhecer e escutar, que se dedica a quem encontra, que pela retina e pelos ouvidos lhe entram todas as cores e sons do mundo, estranha que os outros estranhem ele estar ali sozinho.

Nota da mãe: – Mais do que vires cheio de ti, espero que venhas cheio de/com tudo o que viste, com tudo o que sentiste. Cá te esperamos meu amor! Buen camino

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.