Opinião

O lume nas palavras

Oleiros, 27 de Julho de 2020.

É agora o final da manhã de uma Segunda-Feira em que finalmente o incêndio de Oleiros, Sertã e Proença, que deflagrou no Sábado passado, entrou em fase de resolução. Ironicamente acabei também de gravar uma entrevista para a Rádio Comercial, a propósito de um destino de viagens no nosso país à minha escolha: os Meandros do Zêzere (Geossítio do Geoparque Naturtejo classificado pela UNESCO)

Uma entrevista de tónica turística ainda durante um incêndio parece um antagonismo, numa fase propícia à consternação e reflexão. Apesar do incêndio ainda não estar completamente extinto, decidi avançar. Decidi falar sobre um território que adoro, sobre o local das minhas raízes, e sobre o sítio e paisagens que me acolheram durante os primeiros meses da pandemia. Devo isso e muito mais a este local especial.

Antes de começarmos a entrevista, a simpatiquíssima e empática Ana Martins, autora do programa, estava essencialmente preocupada com o timing da conversa, uma vez que a gravação do programa de forma antecipada, durante o decorrer do incêndio, podia ser de alguma forma sensível para mim. É, mas é também por isso que quis gravar, e quis aproveitar a oportunidade de envolver o auditório de uma das rádios mais ouvidas de Portugal na magia das nossas paisagens, gentes, gastronomia e cultura.

O concelho de Oleiros convive, quase anualmente, com episódios de incêndios. É também com esta periodicidade que vemos a nossa autoestima e a confiança nos nossos governantes fragilizadas. Ouço e leio frequentemente que é impossível resolver o problema dos incêndios florestais. É sempre nestas alturas que surgem as palavras emotivas e descontroladas, não bastasse o flagelo do lume.

Todos sabemos que as medidas de prevenção são insuficientes. Todos sabemos que reconfigurar a floresta custa muito tempo e dinheiro. Todos achamos que podia ser feito mais. E por fim, todos preferíamos atribuir a culpa a um criminoso que fosse possível “apanhar” e resolver o problema para os anos vindouros. Seria tudo mais fácil, mas a realidade prova-nos periodicamente que a exaltação, a culpabilização e o discurso do ódio não têm funcionado.

Concordo com a pertinência de serem tomadas acções concretas sobre o ordenamento do território e o dispositivo de prevenção e combate a incêndios, sendo que o esforço para o financiamento e as concessões que teríamos que aceitar são a barreira habitual, mas de transposição necessária. Concordo essencialmente com a manutenção de uma consciência unida e presente a tempo inteiro sobre esta empreitada a vários anos.

O poder político, como é sabido, costuma debruçar-se sobre as questões de grande escala, que surjam em unanimidade e transversalidade na população. Se todos nos unirmos de forma positiva, participarmos na proposta e, sobretudo aceitação das soluções que daí advenham, podemos acelerar todo este processo. Acho honestamente que temos assistido a este esforço e por isso, não digo que é fácil, ou que é um rumo linear. Será certamente necessário ir ajustando a direcção e ir aprendendo com o percurso tomado.

Se o povo quiser, os políticos estarão com o povo. É também a propósito desta ideia-chavão que me apercebo que, se o povo está com o discurso do ódio, os políticos poderão ir atrás. Temos exemplos de sobra, que o ódio não deu nunca bons resultados.

Contem comigo para a construção de uma coesão de identidade territorial. Contem comigo para a identificação de questões problemáticas e em arranjar formas de envolver as pessoas em iniciativas que procuram solucionar estes problemas. Contem comigo em tudo o que estiver ao meu alcance para tornar esta região num sítio atractivo para quem cá vive e para quem a visita. Contem comigo e com a minha total entrega em actividades que vão de encontro ao crescimento individual e colectivo.

Mas não contem comigo para o discurso do ódio.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.