Crónica

O insustentável peso do ter

Há dez mil anos o ser humano chegou a uma conclusão óbvia, ou vivia em sociedade, ou desaparecia.

Como espécie não somos muito rápidos, não temos a pele muito resistente, não temos garras poderosas, e grande parte dos animais nos ganhariam num duelo de força. Uma Universidade Portuguesa descobriu que o maçarico, uma ave de médio porte, consegue percorrer seis mil quilómetros sem comer e beber. Nós não conseguimos fazer o percurso de Lisboa ao Porto, sem parar na Mealhada para atestar de colesterol, e nem sequer nos deslocamos pelos próprios meios.

Se estamos aqui, agora, foi porque nos unimos. A sociedade atual incute-nos uma individualidade que não ameaça a nossa espécie do ponto de vista físico, porque criámos uma estrutura social que pune quem atenta aos valores da integridade física. No entanto, explora exacerbadamente a ideia da individualidade intelectual. Não é por acaso que estamos a criar seres solitários e depressivos, mesmo quando nunca foi tão fácil como hoje contactar com alguém.

A sociedade da informação separa em vez de unir, as escolas promovem a competição em detrimento da cooperação. Os meios de comunicação, instados por quem os financia, as empresas que publicitam, têm um único objetivo, Criar seres infelizes, porque seres felizes não consomem desenfreadamente , e seres que não consomem sem regra fazem colapsar uma sociedade baseada no endividamento, na insustentabilidade, e na infelicidade permanente.

Estaremos condenados a viver numa sociedade de convulsões permanentes, económicas, financeiras e sociais? A resposta a essa pergunta está na arte, pois é na arte que as emoções do ser humano se tornam absolutas e cruciais. A arte no sentido nietsczhiano da pulsão ativa, a arte como propósito para chegar ao outro, a arte que socializa individualizando, a arte que expõe a essência de cada ser humano, exponenciando as relações interpessoais e afetivas. A arte da solitude, não da solidão. A arte que afeta, não apenas no sentido pejorativo, mas na acepção de Schopenhauer dos afetos, e da proximidade com os outros seres humanos.

Estamos decididamente mais longe uns dos outros, do que estávamos há trinta anos. A proximidade tecnológica afastou-nos da aproximação física, já não precisamos estar para estar, e tentamos a todo o custo acreditar que essa proximidade fictícia nos serve os propósitos de convivência social secular. Compramos mais, sorrimos menos, e, consta que somos menos felizes. Vemos mais nos objetos que nas pessoas, e não percebemos bem aquilo que ainda nos falta.

Somos assim, seres eternamente inconsoláveis, tenhamos o mundo aos nossos pés, ou a miséria à nossa porta. A questão está naquilo que ambicionamos, e na capacidade que temos para perceber todos os tesouros afetivos que as pessoas que nos são próximas nos podem oferecer, e na dimensão do que recebemos, quando nos damos.

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.