Crónica

Infantil

Há dias fiz uma coisa tão infantil, mas tão infantil, que me deu um gozo tremendo. Ora, num passeio no topo de uma das várias montanhas que me rodeiam, mesmo no pico da satisfação provocada pelo ar livre, a vista grandiosa, o calor abrasador do sol e o cheiro das estevas, coloquei no bolso duas pedras que achei bonitas e trouxe-as para casa.

Sim, fiz isso, quando é o meu filho que tem a idade para essas coisas.

Eu sabia que assim que eu chegasse a casa e as colocasse em cima da mesa, estas passariam imediatamente de bibelô geológico ao estatuto de mono. Como se estas Cinderellas tivessem deixado passar a meia-noite e voltassem da festa todas escanzeladas. Estão aqui, à minha frente, sem o encanto que tinham quando as “colhi”. O mais provável é que daqui a uns tempos as coloque num sítio menos visível, depois, num outro ainda mais escondido, e bastante mais tarde, provavelmente irão parar ao lixo ou ao terreno aqui atrás de casa.

Quero evitar que esta história tenha este fim.

Passam poucos minutos da meia noite, agora que escrevo estas palavras, e a hora diz-me que esta resolução, algo triste, não faz jus à alegria que vivi naquele momento em que voltei a ser criança. Por isso, acho por bem comprometer-me a colocá-las no local onde as encontrei. Não só porque o local merece nova visita – que por si só, já valia o tempo empregue – mas porque acredito que ao fazê-lo ficarei bem de consciência. Mesmo que isto amanhã pareça uma coisa sem qualquer importância, é o que farei.

Podia optar por não ligar a estas coisas, muito menos escrever sobre elas, afinal são só pedras. Eu não teria qualquer dificuldade em ignorar esta perspectiva “sensível” e rapidamente render-me à frivolidade destas duas pedrinhas. Mas, cada vez mais, tenho vindo a estar atento aos pequenos sinais que a minha mente me dá, estou mais ciente da importância da poesia das pequenas coisas do dia-a-dia, destes gestos e da sua relevância potencial na nossa vida. É que, também são coisas como estas que nos fazem mais humanos e que transformam a nossa vida em algo mais tolerável.

Amanhã vou mesmo colocar tudo no seu devido lugar. Até consigo antecipar uma certa libertação, como quem devolve um pássaro à Natureza. Provavelmente também é por me livrar de algo que em casa não tem utilidade. Mas resolvi mesmo imortalizá-las, as minhas pedras, fotografando-as para a posteridade. Agora que penso, esta ideia de imortalizar pedras pode ter mais de senil que de poético. Tornar solene este momento e gostar de devolver pedras à Natureza só pode ser sinal de uma de duas coisa: ou que aprendi a gostar dessa “poesia das coisas simples”, ou que perdi o juízo. Não me digam que é a segunda e se for a primeira, também não a quero a tempo inteiro. Já Freud dizia que não queria que as reflexões filosóficas lhe tirassem “a alegria das coisas simples da vida”.

[…]
Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas

Álvaro de Campos

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.