Crónica

O exemplo que vem de cima

Nota introdutória: Para evitar que percam tempo, e apenas pela leitura do título, o meu texto de hoje poderia versar sobre as hierarquias e as noções de exemplo que daí advém, por contra partida ao dever de obediência, e seria toda uma série de frases feitas de fácil entendimento e alcance, os exemplos ilustrativos seriam óbvios e os “a contrário” também, todos vimos o que aconteceu com o “Senhor Doutor Juiz” e o Senhor Agente da Polícia, (de propósito um com aspas e outro sem) poucos teremos dúvidas onde estavam a razão e a força, o trocadilho da “razão da força e da força da razão” serve e veste os entendimentos mais básicos como uma luva. Atendendo ao título, dizia eu que o meu texto poderia ser sobre isto, só que não…

Escolhi escrever sobre outros exemplos, e vou fazê-lo num tom intimista e de partilha, é que tenho a grande sorte de ter belos exemplos de vida que me chegam de cima, dos mais seniores, de pessoas a quem a vida não foi fácil, nunca é, mas que ainda assim escolhem vivê-la de uma forma alegre, descontraída e sem ter que provar quase a nada a ninguém, desconfio que a única coisa que querem provar, mais do que aos outros, a si mesmos: é que vale a pena! Tenho vários exemplos destes ascendentes maiores, sorte a minha, já perdemos alguns, pilares e pedras-toque, a nossa estrutura abanou e ameaçou ruir, os que ficamos sentimos-lhe a falta todos os dias, e a escolha começa aqui: podemos lamuriar-nos pela ausência, lamentar-lhes a partida sempre cedo demais, sempre antes do tempo, do nosso tempo, e assim comiserarmo-nos na dor e na angústia, fazendo dos dias de sol, entardeceres tristes e sombrios. Ou pelo contrário, trazê-los, aos que nos faltam, no altar maior do coração e lembrá-los sempre em tudo o que fazemos com a vivacidade e a espontaneidade que gostavam em nós. Acredito que não há maior homenagem a prestar aos que nos partiram do que viver com vontade.

E volto aos ascendentes, aos meus exemplos de cima, aos que ainda são o meu, o nosso, recife de coral, aprecio-lhes a ética, a integridade, a honestidade, a coragem de continuarem, a vontade de viver, mas acima de tudo aprecio-lhes a vivacidade, a espontaneidade e a autenticidade, a alegria de quem sabe que somos impermanentes e de que é urgente viver. Conjugam o verbo ir nas pessoas que lhes apetece, estão sempre prontos para descobrir: seja a ler, a viajar ou noutras formas, escutam atentamente os mais novos quer na cronologia, quer no conhecimento, vá às vezes não tão atentamente quanto gostaríamos, porque também já gozam de audição selectiva, são prorrogativas que se conquistam. Desafiam-se sempre, continuam a ir mais além, partilham interesses e a história das estórias, continuam a surpreender-nos assim estejamos atentos, sim, também nos contam muitas vezes a mesma história, às vezes usam palavras diferentes, a nós cabe-nos escutar com o deslumbre renovado, faz parte, é assim mesmo. 

Continuo a chamar sorte à aceitação que nos têm, às escolhas que fazemos e por vezes lhes são estranhas, mas que aceitam e tomam como normais, assim que nos advinham as convicções, já guardaram o moralismo numa bagagem que despacharam há muito para lugar incerto, não lhe querem saber o destino. Alegram-se com as nossas conquistas e incentivam-nos a continuar, a ir mais fundo, se for preciso escavar chamam alguém para nos ajudar, que as costas já lhes doem, as hérnias já lhes tomaram conta das vertebras, mas nunca lhes inclinaram a coluna dorsal, também as árvores morrem de pé.

São guardiões, sem ser impositivos. Os sermões foram na mesma mala a despacho para parte incerta. Desfrutam do que a vida lhes traz, se há vento deixam os cabelos ondularem, se há chuva deixam que caia sobre a terra, sabem sempre que o sol voltará, quando a vida por algum motivo se atrasa com eles, saem à frente numa armada vencedora, abrem caminhos, fazem-se ao mar.

E oxalá lhes sigamos o exemplo da disponibilidade, e possamos também um dia terminar uma festa mais ou menos formal da vida, já madrugada alta a despir a camisa e a mergulhar fundo na piscina, porque sim, porque têm vontade de viver, porque a vida lhes é uma iminência! 

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.