Crónica Geral

Democracia

Democracia: Do grego: demokratía, -as, governo do povo_ Dicionário Priberam

Quando o povo exerce a sua capacidade governativa direta ou indiretamente

Somos todos chamados, os maiores de 18 anos e capacitados, a exercer este direito: o de eleger quem, em nosso nome, nos governará nas autarquias pela décima terceira vez desde que o regime é democrático, já no próximo dia 26.

O que tenho visto e ouvido é genericamente desinteressante, vejo cartazes espampanantes de candidatos e partidos sem ideias, alguns até ofensivos, há cartazes com candidatos deitados no chão em pose de James Bond, utilizando todo o imaginário heróico de quem estará pronto para desempenhar missões impossíveis, chamar a isto jocoso é pouco! Vejo outros sem conteúdo, com uma ou outra frase-chavão, com as chancelas dos partidos. Talvez seja a vontade de contrariar a ideia dominante de que de promessas está o inferno cheio, como se já não valesse a pena investir, “ou para quem é bacalhau basta!”. É uma espécie de cultura política pop ou light, ou o que lhe quiserem chamar, em que as campanhas se baseiam em trocadilhos, em coisas catchy-eye, do tipo refrão de canção infantil.

Dos debates autárquicos que tenho visto, para além dos recortes que nos aparecem nas redes sociais, o nível de discussão de ideias e de propostas é também curto, esgrimem-se argumentos que versam vizinhanças, quase como se de desgostos amorosos se tratasse, e claro, estes prestam-se a isso mesmo a aparecerem nos tais recortes das redes sociais ou nos programas de humor, para que nas caixas de comentários se continue a saber “quem é do lado do noivo” e “quem é do lado da noiva”. Felizmente nem tudo é mau, e há coisas boas a acontecer.

A democracia em Portugal é ainda adolescente tendo em conta o número de vezes que fomos chamados a eleger quem queremos que nos represente, mas em termos de idade absoluta, dir-se-ia que já é adulta e madura, são quarenta e sete anos, então caramba, não deveríamos ser todos mais exigentes? Depois é contraditório que na época da sociedade de informação, seja necessária uma leitura muito atenta e capacitada de espirito crítico e de análise para lermos os manifestos das candidaturas e assim descortinar o que se propõem fazer.

Temos um adolescente feliz que irá votar pela primeira vez e consciente do direito que lhe assiste, quer exercê-lo de forma ponderada, sem vocação partidária pré definida, embora com experiência participativa, partilho convosco que a pesquisa de informação que acompanhamos se assemelhou a uma missão espeleológica difícil, foi necessário levantar muitas camadas de desinformação, até que ele se sentisse confortável para votar. Assim não se aproximam pessoas, assim não se criam ligações significativas entre governantes e eleitores, ou por outra: assim se afastam os jovens da política e depois, depois criticam-se as novas gerações, rotulando-as de desinteressadas, e temos o caldo perfeito para a pescadinha de rabo na boca! (Sei que é frita e não se cozinha em caldo, podem sossegar)

Talvez a marca de água dos jovens atuais (se é que existe algo parecido), seja uma menor partidarização, um menor interesse na catalogação entre a direita e a esquerda e um maior interesse no conteúdo, nos valores e na mensagem. Quando aprofundo este assunto com eles, o primeiro argumento que esgrimem é que quando se associam a um partido têm a sensação de imobilismo, de ficarem estáticos e por consequência não serem agentes de mudança, e nos seu entendimento mudança e progresso são sinónimos.

E para terminar, notem que vos escrevo enquanto residente num Concelho que elegeu e voltará, infelizmente, a eleger para Presidente de Câmara um indivíduo que foi condenado a sete anos de prisão e a perda de mandato por fraude fiscal, abuso de poder e corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais. Quando acreditamos na democracia, vou saltar aqui toda uma outra discussão válida sobre se deveria ou não haver, após este tipo de condenação o impedimento para a recandidatura a cargo público… dizia que quando se acredita na democracia e se devolve o poder ao povo, para que soberanamente decida, eis que a voz popular prefere resumir desta outra forma enviesada: “Rouba, mas faz!” Se isto não é um paradoxo, não sei o que será…

Ganharíamos todos se o debate político em geral e agora o autárquico em particular, fosse mais elucidativo, mais honesto, mais transparente e elevado intelectualmente. A democracia é, até ver, o menos imperfeito dos sistemas políticos e votar é um direito e para quem quiser ir mais além, um dever cívico. E de repente poderia reescrever o título desta crónica: A Democracia e os seus múltiplos paradoxos!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.