Geral

Por falar em espaço mental

Hoje acordei turvo. Lá acontece porque se dorme menos, porque se dorme mais, porque os afazeres se acumulam ou se calhar é pura sorte. Também é provável que durante o sono gire uma espécie de roda da sorte biológica que dita o humor para o nosso dia. Seja o que for, atirar as culpas ao tempo cinzento serve-me sempre.

Há alguns meses falava com uma “amiga resineira” a propósito do desafio que é a gestão das várias ideias e projectos que surgem e da necessidade de fazermos as escolhas certas para gerir aquilo que ela denominou de “espaço mental”. Gostei da expressão. Tal como no espaço físico, o espaço mental também ganha com a arrumação: fica mais optimizado e tem melhor desempenho.

Infelizmente, esta higiene mental da arrumação não é como eu funciono naturalmente. Sendo algo com que eu me debato e que procuro entender melhor diariamente, exige um esforço maior do que se vê por fora.

A minha mente tendencialmente inquieta parece preferir sempre novos projectos e os caminhos exploratórios. Assim que estes ganham dimensão para necessitarem de alguma estrutura e gestão é como se eu mudasse de profissão de repente: retiro o chapéu do criativo e coloco o de gestor. E não tenho qualquer problema em dizer “gestor”, porque gestores somos todos: uns tem coisas para gerir e outros não. Uns são melhores que outros e eu, incluido nestes últimos, que remédio tenho senão gerir o necessário para que as ideias se traduzam em algo concreto e se mantenham vivas.

Não me é algo fácil de fazer, criar e gerir são modos de pensar contraditórios. Por um lado procura-se a espontaneidade e a emoção, por outro, a estrutura rígida de um propósito financeiro e de estabilidade. Pois, a minha vida tem sido mudar de chapéu todos os dias e viver de projectos ligados à criatividade, que precisam de ser geridos de forma sistemática. Ser várias coisas é algo que tenho aprendido à força. Vive-se com este conflito interior mas ao menos não é monótono.

Saber escolher aquilo a que dedicamos a nossa energia é uma virtude que valorizei apenas nos anos mais recentes. Só há pouco percebi que sou um perfeccionista e atenção que isto nada tem a ver com fazer coisas perfeitas ou sequer bem feitas. É talvez uma das razões que me vão criando obsessões e paixões, das quais, por vezes, tenho mais dificuldade em me libertar do que devia. Vagueando sobre esta ideia, se calhar vamos deixando um pouco de nós nas ideias que criamos. Ou serão elas que deixam um pouco delas em nós?

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.