Crónica

O curandeiro semântico

Eu tenho uma dor, doutor
Disse o paciente
Apontando ao peito
O médico, pensador
E muito observador
Ficou um momento
A teorizar
Logo de seguida
Afirmou decidido
Vou quantificar
A sua agonia
Com o meu medidor
Aparelho moderno
Tem um mostrador
Bastante preciso
Se não resultar
Chamo o provador
Um palato fino
Mestre a destrinçar
A mais fina maleita
Se for caso mais grave
Talvez no tratador
Esteja a solução
Tem um aspirador
E é muito famoso
Por ser neste hospital
O maior conhecedor
Sabe que em tempos
Disse o portador
Olhando a janela
Sentia-me um pássaro
Não me diga?
Talvez um falcão?
Ou mesmo um milhafre?
Era condor
Respondeu o paciente
Cheguei até a ser
Um excelso admirador
De um bom simulador
Gosto de bom bluff
E não me incomodava
Se fosse adorador
Ou mesmo cantador
Via-o sempre
Como ganhador
Descomprometido
Ou até um amador masoquista
Sonhador inconsciente
Mais ou menos por volta
Dos meus cinquenta anos
Que tenho um fascínio
Deveras doentio
Pelo devastador
Pelo demolidor
E aterrador, até
Isso é comovedor
Respondeu o doutor
Além disso
O senhor é muito falador
É sempre dador?
Se bem que salvador
Como primeiro nome
É sempre mau presságio
Diria que o seu progenitor
Não foi bom zelador
Da sua ataraxia
É a minha mulher
Apresento-lhe, doutor
Maria das Dores, é um amor
Só é pena, já se vê
Este nome revelador
Tem um tom bem rural
Que lhe dá um encanto
Mas tinha que ser plural?
Que chatice meu caro
Mas tratemos da singular
Se ela for muito aguda
Talvez eu lhe receite
Um atacador
Se for muito durinha
Um amortecedor
Ou se gostar de calor
Talvez um esquentador
Ou em última instância
Talvez se o senhor
Tiver um objeto voador
Pode ser que ela se vá
Para bem longe de si
O doutor acha mesmo
Que um atacador
Ou até esquentador
Pode ser solução
Para o meu desconforto?
Sim sim, vá por mim
Há muitos anos que sou
Curandeiro semântico
Neste humilde hospital
Dou-me bem com todos
Menos com o administrador
Por motivos bem claros
Se essa dor que o assiste
Persistir sem cessar
Fale com um exportador
Para que ele a envie
Em correio registado
Para um estuprador
Talvez no equador
Ou se preferir
Fintar a maleita
Chame um jogador
Se ela for insurreta
Fale com um educador
Que os há, e bem bons
Seja ele formador
Daqueles engravatados
Que além de vendedor
Tem pinta de empreendedor
Que sofrimento desse
Não se deseja, já se sabe
Nem a ditador
E afaste-se para já
De todo e qualquer criador
Ou mesmo aviador
Que ar e dor juntos
Também não são flor
De grande odor
Ou até se o senhor
For de ímpetos malévolos
E requintes de malvadez
Contrate um violador
Isso é tentador, doutor
Respondeu o doente
Com ar sabedor
O doutor não terá
Pelo seu consultório
Talvez um abridor
Para que eu possa ver
O que está lá por dentro?
É melhor não incomodar
Quem nos chateia tanto
Tenho uma ideia indolor
Pode ser que o senhor
Se for simulador
De dor noutro local
Lhe dê a ciumeira
E se vá de uma vez
Para ao pé de um pescador
Ou de um bom soldador
Que a prenda ao destino
Ou então porque não
Pode doar a dor
Quando estiver a doer?
Não, Quando estiver a doar
Não pode doar sem doer
E a dor vai assim, doutor?
Vai, assim mesmo, do ar
Ao peito do locador
Mas só quando doer
E agora andor
Tenho mais que fazer
Esta dor deu-me fome
Doravante camarada
Serei orador de todo o enfermo
Doravante camarada, doravante
Junta a tua a nossa dor.

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.