Geral

Os nossos sonhos mais bonitos fazem-se enquanto estamos acordados

Tenho uma memória recorrente de uma noite de 2001. A noite em si mesma não tinha nada de extraordinário a não ser o facto de eu ter acordado obcecado com um pequeno motivo musical. Tive a certeza que foi o entusiasmo e a percepção que esse pedaço de música seria a solução para uma coisa que andava a magicar que me acordaram. Sentia-me já realizado e ansioso para colocar a ideia em prática. Nunca tinha escrito para percussão, peguei num papel, rascunhei e anotei a ideia como pude para garantir que não a perdia na manhã seguinte. Voltei a dormir.

Na manhã seguinte, o fragmento de música estava lá, inteiro: ainda na minha memória, como aliás permanece até hoje. Era um ostinato rítmico com quatro timbres, tocado com três instrumentos de percussão: bombo tradicional (pele e aro), cabaça e triângulo. Um pedaço de música pequenino, repetitivo, com uma articulação e um intrincado que, musicalmente falando, me apaixonou. Ouço-o bem na minha cabeça, adorava que o ouvissem.

Não tive muitos episódios como este. Talvez seja por eu nunca me lembrar dos sonhos. Talvez tenha sido apenas sorte. Tenho pena que seja assim, isto da incapacidade de sonhar. Dava jeito de vez em quando ter um sonho que resolvesse os assuntos do foro da criação artística. É que por vezes passo por “plateaus” criativos sofridos… Pela força do hábito (da mecanização e da reutilização de recursos estilísticos) até continuo a produzir mas sem saber muito bem se estou a fazer o que quero e o que gosto. Normalmente acabo por ultrapassar estes momentos com o tempo ou com uma mudança de ambiente. Depois disso, é comum seguir-se uma avalanche de ideias. A maioria das minhas ideias com um final mais feliz apareceram-me de rajada. E normalmente, as abençoadas rajadas apareceram depois de alguma ruptura na ordem das coisas.

É por isso que escolhi o título deste texto, por reconhecer a minha necessidade de estar espevitado e bem acordado para provocar as alterações na rotina do dia-a-dia, nas tarefas ou nas escolhas dos instrumentos em que procuro inspiração para as canções. Não ponho de parte o papel dos sonhos – para quem tem a felicidade de os ter – na construção de referências criativas estimulantes, mas para mim, que não sonho, resta-me outro tipo de sonhos, os que são sonhados acordado. Como estes acontecem no plano da consciência falta-lhes normalmente o arrojo surrealista da mente sem filtro crítico que nos oferece o sono. No entanto, basta querermos, para nos colocarmos em situações novas, frescas e reveladoras. Procurar novas conversas, novas leituras, nova música ou um simples passeio por um lugar diferente do habitual, têm por vezes um papel determinante no impulso criativo e nas inquietações que movem o nosso espírito inventivo e tornam isto de viver em algo que vale muito a pena.

Por falar em provocar mudanças, hoje mudei de sala de ensaios. Só o facto de o ter feito, ainda antes de levar os instrumentos para lá, já me deixa com vontade de ensaiar. Só o facto de deixar a anterior sala de ensaios liberta e organizada com outros instrumentos, que estão a ser usados num outro contexto, também me está a deixar a mente mais arrumada.

Coisas simples, mas que fazem a diferença quando aquilo que vendemos é o resultado da nossa procura pela expressão das sensibilidades humanas: coisas dos artistas, esses sensiveizinhos.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.