Crónica

O sorriso manhoso da besta

Algumas corporações têm meandros difíceis de entender e de aceitar… o seu primeiro emprego foi num Banco, tinha na altura vinte anos, uma estrutura bem hierarquizada, vários departamentos, um Diretor que chefiava muitos. Quando chegou estranhou que muitos desses departamentos fossem compostos por miúdas muito jovens, em contraposição a outros com senhoras maduras e crescidas, havia poucos homens.

Achou estranha a espera que lhe pediram que fizesse no hall do quarto piso, antes que se instalasse para começar, achou estranho mas afastou a estranheza, com a noção de que devia ser assim mesmo, mais tarde percebeu que até que a besta desse o seu aval, a contratação não passa de um pró-forma, que aquele era o crivo pelo qual passavam todas, na sala que dava para o gabinete-aquário, até que o peixe balão passasse, mirasse e aceitasse, nada feito.

Rapidamente percebeu que as senhoras mais crescidas temiam a besta que habitava no aquário, no quarto piso daquele edifício da baixa pombalina, evitam-no e quando não era possível, saíam de lá lavadas em lágrimas. A pressão sentia-se ali, logo no acesso reservado daquele elevador. Mas havia mais, muito mais, havia reuniões com o telefone em alta-voz, que por aqueles tempos ainda não havia videochamadas, com os gerentes de balcão para discutir aceitações de crédito hipotecário, ela pensava que aquelas reuniões seriam privadas, só que não. A besta convidou-a a sentar-se na mesa redonda, moveu o cinzeiro que transbordava a cigarrilhas e cinza e o telefone fixo, sentaram-se e enquanto a besta abria os processos, e a mão lhe deslizava casualmente para perto da dela, aproveitou para iniciar a conversa:

-Estudou num colégio de freiras, não estudou?

-Sim… Respondeu-lhe ela, estranhando aquela alusão ao seu currículo, uma vez que se tratava do ensino básico, havia muitas linhas depois, porquê aquela?

-Pois, e vejo que lhe ficaram resquícios…

Perante o silêncio…continuou:

-Você veste-se como as freiras, os punhos das camisas veem-se depois dos punhos dos casacos, as calças ou as saias sempre muito compridas! Dizia enquanto esboçava um sorriso trocista…

Foi salva pelo telefone, do lado de lá alguém tinha entretanto atendido, e a conversa mudou de tom, o intimidado era agora um gerente bancário com mas de vinte anos de experiência, que foi humilhado ali, pela besta, na sua presença, para que se duvidas houvesse quanto à supremacia da besta, ali teriam ficado mais claras que a água: a altivez e a argumentação humilhante eram danosas para qualquer pessoa, com muitos ou poucos anos de experiência profissional. Normalizam-se tantas anormalidades, caramba!

Tudo era intimidatório, desde o agrafo que ele tirava com o saca-agrafos, e lhe perguntava com um sorrisinho manhoso, se ela sabia qual era a semelhança entre aquele pedaço de metal que agarrava as folhas e os “pintelhos” da Margaret Thatcher … ela afundava-se na cadeira.

Ou, uma outra vez, logo nas primeiras semanas em que a chamou pessoalmente ao aquário para lhe pedir que fosse à Sede do Banco, ao piso da Administração levar um envelope que tinha escarrapachado a vermelho: Confidencial. Estranhou mais uma vez, porque tinham um estafeta que de mota, levava menos de cinco minutos a percorrer a distância entre a Rua Áurea e a sede: -Vá de táxi e traga-me os recibos! Estranhou, mas obedeceu e foi. A estranheza foi crescendo à medida que passava de um piso a outro, de um elevador, para outro, com chaves, e seguranças, que destrancavam portas. Pensou que iria deixar o tal envelope ao cuidado de uma das secretárias, mas não, teria que ser entregue em mão ao Administrador Geral do Banco. Antes de se sentar e aguardar pode ouvir que a Secretária a anunciava como: – Está aqui uma das meninas do Dr. X! Lá dentro do gabinete, pode ver um senhor alto, de cabelo grisalho puxado atrás, lenço no bolso do casaco de padrão idêntico ao da gravata, que se levantou para a vir receber. Até hoje tem a certeza de que esta “revista às tropas” era a última antes que o tempo experimental do seu contrato terminasse. Quando regressou ao seu local de trabalho, percebeu que aquela prática era comum, que se tratava de uma “exibição de aquisições”, de uma objetificação pela qual já muitas tinham passado.

Dali em diante, a pouco e pouco, ela fortificou-se e começou a responder aos avanços despropositados da besta:

– Jantamos e bebemos um copo, amanhã?

– Não me parece que tenhamos âmbito para tomar refeições juntos, fora do horário de trabalho, beber copos, só com os amigos… Respondia-lhe assertiva mas, claro, receando as consequências.

Sobre as alusões à roupa formal, passou a responder-lhe que tinha outra roupa para sair com os amigos e para ir à praia.

Sempre que foi necessário representar o Banco perante Clientes mais formais e mais institucionais, chamaram-na. A besta dizia-lhe que ela caia bem aquele segmento de Clientes.

Passaram-se três anos, no momento em que a besta finalmente entendeu que não havia predisposição para nada mais do que trabalho, avançou então para a estocada final: uma proposta para formar uma nova equipa no Porto e aí replicar um departamento que já existia em Lisboa, com as mesmas condições salariais que ela tinha até então. Perante a recusa, chegou-lhe às mãos um documento de rescisão de contrato de trabalho, porém, uma “má contagem de prazo” para a sua assinatura, originou a nulidade daquela comunicação. O assunto resolveu-se no Tribunal de Trabalho, dando origem ao pagamento de uma indemnização por parte do Banco, porque a “miúda” perante um despedimento nulo, não aceitou ser reintegrada nas suas funções.

Mesmo após a sentença do Tribunal, para assinar e fechar contas, e num último exercício de autoritarismo, supremacia, desrespeito e arrogância, ela teve que esperar pelo Diretor de Recursos Humanos, mais de trinta minutos, para além da hora marcada para a reunião, num corredor, de pé. Já era só mais do mesmo!

A partir daqui, vou passar a escrever na primeira pessoa, porque sim. Porque esta história passou-se comigo, trabalhei três anos numa estrutura machista, que objetificou dezenas, talvez centenas de mulheres com a participação e conivência de muitos, eram várias as bestas! Havia esquemas que funcionavam num conhecido bar da noite lisboeta onde alguns membros da direcção daquele Banco se encontravam com algumas das minhas colegas.

Almoçamos eu e o Dr. X, alguns anos mais tarde, contatou-me via FB, aceitei convencendo-me a mim própria que queria perceber se a “má contagem de prazo” para a rescisão do Contrato de Trabalho teria sido intencional ou não. Na verdade, aceitei aquele convite porque quis dizer-lhe algumas coisas. Pude naquele almoço, já sem nenhuma relação hierárquica, ali, de igual para igual, mais crescida, sem medo, dizer-lhe que era inadmissível a forma como se dirigia às pessoas em geral, às mulheres em particular e como geria e chefiava as suas equipas, recostou-se na cadeira, voltou a fazer aquele sorriso manhoso e respondeu-me com a calma das bestas: – O que não era admissível era que você fosse tão gira, tão fresca e tão inacessível!…

Os cretinos dificilmente deixam de ser cretinos.

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.