Crónica

Do lugar das memórias (olfativas) felizes_ Parte II

Tenho de O-L-E-I-R-O-S algumas memórias irrepetíveis, são memórias de afetos e do olfacto, a felicidade não se repete, podemos ser felizes mais do que uma vez no mesmo lugar, mas não é a mesma felicidade, é outra.
Como se explica o cheiro da adega do meu tio, a quem nunca esteve numa? As paredes de pedra sobre pedra onde era possível ver a rua nos pedaços em que elas não se encostavam, o chão de lajes da ribeira polidas por anos de água que por lá passaram, assim que descíamos o degrau para entrar nos arrepiávamos, apesar dos 40º C da rua, lá dentro estava sempre frio, e o cheiro a azul, sim, as cores têm um aroma associado, pelo menos para mim, cheirava a enxofre e a fermentação, cheirava a azul arroxeado, porque as grandes pipas transpiravam e deixavam antever junto das torneiras as manchas azuis do vinho tinto que guardavam. Atada a cada torneira jazia pendente uma concha de cortiça, por onde se provava o vinho azul, juro que era azul e tingia a boca.

As pipas estavam enfileiradas sobre uma outra laje plana, a maior talvez estivesse assente no chão, e entre elas havia sempre um rendilhado de teias de aranha que conferiam aquele lugar um cenário único e que brilhavam e se moviam lentamente sem nunca se despregarem da madeira redonda a que se agarravam. Na outra sala a seguir, ainda mais escura que esta, funcionava a loja do governo, era aí que estavam a salgadeira, as arcas do milho e do feijão e era aí que se guardava o alambique quando não estava a funcionar- no forno, porque também havia dias que cheirava a medronho e a aguardente. No teto rebaixado com vigas de madeira havia muitas originalidades penduradas, entre as quais os molhos de ervas várias, que acabavam uns a condimentar comida, outros a alegrar chávenas fumegantes de chá quente, lembro-me da carqueja, da imagem do São João Batista, ou a coroa de marcelas já amarelecidas para além da conta que estava também ali pendurada junto à porta. Hoje mesmo que volte aquela adega, estou certa que não vai cheirar a azul.

Ou da cozinha antiga da minha querida tia, fora da casa, entrava-se por uma porta de madeira com um daqueles trincos também de madeira esboroada e gasta, com uma entrada para gatos no centro, junto ao chão, não sei se era a porta que se tinha feito ao chão, ou o chão à porta. Lá dentro as paredes também de pedra estavam cobertas de fumo, era sombrio, escuro, era um lugar mágico, tenho a certeza que a minha tia era feiticeira, das boas, das que espalham bondade e carinho, o fogo era no chão, as brasas estavam sempre acesas, havia várias panelas de três pés, que a minha tia manejava com muita perícia, tirando uma, colocando outra no suporte ali no centro sobre as brasas incandescentes. Às vezes cheirava a arco iris, tal não era a profusão de sabores e de cores, mas na maior parte do tempo, o cheiro era vermelho e laranja, afinal era ali que estavam as chouriças a secar. Cá fora cheira a verde, eram os vasos de manjericos e cravetas. A minha tia maga, descobria trevos de quatro folhas com visão helicóptero, eu demorava horas e invariavelmente colhia os de três folhas.

Ou de quando eu voltava a Oleiros, e passados minutos, chegava o meu tio de bicicleta, com um miminho feito pela minha tia, envolto num paninho bordado pelas suas mãos vinha uma relíquia que cheirava a amarelo, quando eu desatava os pequenos nós que prendiam o pano, o aroma a milho quente espalhava-se por todo o lado, tenho a certeza de ter ouvido a broa cantar várias vezes, enquanto ainda fumegava, a acompanhar esta, vinha outra relíquia que o tio me recomendava sempre com ternura que abrisse em cima de um prato, vinha um queijo, circundado pelo cincho de metal, embrulhado também num outro paninho, que, apesar do tio pedalar rápido, já estava ensopado, tal era a frescura, por cima ainda se viam dois ou três cristais de sal, cheirava a branco, o aroma que identifico como branco não é o da roupa lavada, é um queijo de cabra. Posso comer quantos queijos de cabra houver, mas nenhum me faz tão feliz, porque a felicidade não se repete!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.